Caiu.
Caiu.
Caiu...
De imensurável altura celeste o anjo caiu.
Pena por pena o par de asas foi se desfazendo, sefira por
sefira a queda foi se adensando.
Pena se foi. Quether. Pena soltou. Hocmah. Pena partiu.
Binah. Pena sangrou. Hesed. Pena se desfez. Gueburah. Pena despegou. Tiferet.
Pena desgrudou. Netzah. Pena descolou. Hod. Pena se desligou. Iesod. Pena não
mais. Malcuth.
– A queda findou, Malcuth – disse a voz sem voz.
– Quem é Malcuth? – o anjo questionou.
– Malcuth é você, assim com EU SOU Ain Sof Aur – respondeu o
silêncio.
– Mas...
– Você caiu, Malcuth – a voz do silêncio interrompeu o anjo.
– Agora é nada mais do que um caído. Aquele que perdeu a coroa; que renunciou à
sabedoria; que não compreendeu a Criação; que não obteve misericórdia no
julgamento; que utilizou da força, movido pelo egoísmo; que se julgou o mais
belo; que aspirou a vitória; que perdeu o esplendor; que almejou a fundação; e
foi, enfim, aprisionado no reino! – prosseguiu. – Sim, um caído! Aquele que
nunca poderá se levantar e ascender aos céus!
O silêncio silenciou.
Malcuth sentiu o peso do corpo físico, saboreou a gravidade.
Voar agora, não mais do que um desejo. Caminhou pela realidade densa. O mundo
físico. Pensou. Refletiu.
Enfim sorriu.
– Não serei alcunhado Malcuth, mas sim me batizo Adão
Kadmon. O homem! Pois de agora em diante serei um que é muitos! Destruirei-me e
me reconstruirei em busca da divindade! Assim é certo, não desistirei até me
tornar Deus!
O caído passou a caminhar sobre duas pernas, numa tentativa
de reproduzir o levantar-se, o reerguer-se aos céus. E todas as vezes em que
viesse a cair se lembraria do levantar, do reerguer-se.





















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