23/01/2012

Mas quando você mata um deus, amigo meu...


“He severed segments secretly, you like that
He always took the time to speak with me
And I liked him for that
He severed segments so secretly you like that
[What is this, a throw away? What is this, a throw away?]
He always took the time, he always took the time”
(Interpol – Roland)


Tempestade.

As gotas de chuva metralhavam o maverick vermelho ano 71. Samples de um coral de   M134 minigun. O vidro dianteiro... Mais embaçado do que óculos de grau na sauna. Mesmo assim, Carlos socava o pé no acelerador. Xingava. Balbuciava. Chorava. E, mais uma vez, xingava. As mãos trêmulas tentavam manter estável o volante.  Porra!

A cobiçada máquina dos anos 1970 capotou. Carlos só teve tempo de gritar ‘porra’.

Uma.

Duas.

Três.

Quatro vezes.

Quatro vezes o maverick rubro beijou o solo e cambaleou no ar. Em uma dança trágica que culminou numa estrondosa explosão. Fogo vermelho desafiando as incontáveis gotas celestes. Fumaça negra ornamentada por trovões ininterruptos. O inferno parecia querer se apresentar no palco terreno.

Porra!

Era a voz do fantasma de Carlos.

Pelo menos não tem como ser pego, disse parecendo se aliviar diante de sua trágica e violenta morte.

Aí é que você se engana, disse uma voz pálida.

Carlos se virou. Do jeito mortal e não espectral. Ainda era muito cedo para saber das manhas fantasmagóricas.

A figura sombria do perseguidor estava diante do recém-falecido. E não importava quantas M134 minigun cuspissem suas gotas de chuva, nenhuma alcançava o corpo do algoz. A sombra diante de Carlos era imaculada.

Vamos, seu tempo acabou. Disse aquele que não se molhava.

Por que você não se molha? Perguntou o espírito do defunto.

Água é vida. E vida não gosta de morte! Gargalhou mais alto do que os trovões.

Não posso! Me dê mais tempo!

Tempo não é minha repartição. Cuido apenas de assuntos de morte.

A Morte prosseguiu.

Além do mais, você foi um carniceiro! Com suas dezesseis facas, que carregou por toda cidade. Pelo menos... Veja! Parou a tempestade! Meu melhor amigo morava na Polônia, sabia disso? E, oh, ele tinha barba! Mas, infelizmente, você o pegou com sua mala e suas dezesseis facas naquele lugar público, não foi, Carlos? Este meu melhor amigo era Odin... Isto era o que eu mais temia. Isto era o que você imaginava?!

O fantasma de Carlos começou a passar mal, isto é, se fantasmas podem tal regalia.

Vomitou ectoplasma.

O ceifador tirou das costas uma enorme foice e findou com a existência de Carlos.

Morto em vida. E morto em morte.

Quando se é um serial killer você me obriga a fazer hora extra. Mas quando você mata um deus, amigo meu... Aí você não merece nem segunda chance!

Virou-se e caminhou para longe da multidão que se formava ao redor do local do acidente. Ambulâncias e o carro dos bombeiros passaram voando.
.’.
A Morte entrou em um pub qualquer. Gostava de enxergar a “vida” em preto e branco.

Assistiu, com uma face inexpressiva, a banda que animava os jovens.

Um dia ela iria recolher as almas de todos aqueles que viviam.

Será que algum dia outro viria recolher a existência dela?

Ou o ceifador estava fadado à solidão no fim da eternidade?

Conto escrito por Leonardo Triandopolis Vieira.


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