“He severed segments
secretly, you like that
He always took the
time to speak with me
And I liked him for
that
He severed segments
so secretly you like that
[What is this, a
throw away? What is this, a throw away?]
He always took the
time, he always took the time”
(Interpol – Roland)
Tempestade.
As gotas de chuva metralhavam o maverick vermelho ano
71. Samples de um coral de M134 minigun. O vidro dianteiro... Mais
embaçado do que óculos de grau na sauna. Mesmo assim, Carlos socava o pé no
acelerador. Xingava. Balbuciava. Chorava. E, mais uma vez, xingava. As mãos
trêmulas tentavam manter estável o volante. Porra!
A cobiçada máquina dos anos 1970 capotou. Carlos só teve
tempo de gritar ‘porra’.
Uma.
Duas.
Três.
Quatro vezes.
Quatro vezes o maverick rubro beijou o solo e
cambaleou no ar. Em uma dança trágica que culminou numa estrondosa explosão.
Fogo vermelho desafiando as incontáveis gotas celestes. Fumaça negra
ornamentada por trovões ininterruptos. O inferno parecia querer se apresentar
no palco terreno.
Porra!
Era a voz do fantasma de Carlos.
Pelo menos não tem como ser pego, disse parecendo se
aliviar diante de sua trágica e violenta morte.
Aí é que você se engana, disse uma voz pálida.
Carlos se virou. Do jeito mortal e não espectral. Ainda era
muito cedo para saber das manhas fantasmagóricas.
A figura sombria do perseguidor estava diante do recém-falecido.
E não importava quantas M134 minigun cuspissem suas gotas de chuva, nenhuma alcançava
o corpo do algoz. A sombra diante de Carlos era imaculada.
Vamos, seu tempo acabou. Disse aquele que não se
molhava.
Por que você não se molha? Perguntou o espírito do
defunto.
Água é vida. E vida não gosta de morte! Gargalhou
mais alto do que os trovões.
Não posso! Me dê mais tempo!
Tempo não é minha repartição. Cuido apenas de assuntos de
morte.
A Morte prosseguiu.
Além do mais, você foi um carniceiro! Com suas dezesseis
facas, que carregou por toda cidade. Pelo menos... Veja! Parou a tempestade! Meu
melhor amigo morava na Polônia, sabia disso? E, oh, ele tinha barba! Mas,
infelizmente, você o pegou com sua mala e suas dezesseis facas naquele lugar
público, não foi, Carlos? Este meu melhor amigo era Odin... Isto era o que eu
mais temia. Isto era o que você imaginava?!
O fantasma de Carlos começou a passar mal, isto é, se
fantasmas podem tal regalia.
Vomitou ectoplasma.
O ceifador tirou das costas uma enorme foice e findou com a
existência de Carlos.
Morto em vida. E morto em morte.
Quando se é um serial killer você me obriga a fazer hora
extra. Mas quando você mata um deus, amigo meu... Aí você não merece nem
segunda chance!
Virou-se e caminhou para longe da multidão que se formava ao
redor do local do acidente. Ambulâncias e o carro dos bombeiros passaram
voando.
.’.
A Morte entrou em um pub qualquer. Gostava de enxergar a “vida”
em preto e branco.
Assistiu, com uma face inexpressiva, a banda que animava os
jovens.
Um dia ela iria recolher as almas de todos aqueles que
viviam.
Será que algum dia outro viria recolher a existência
dela?
Ou o ceifador estava fadado à solidão no fim da eternidade?
Conto escrito por Leonardo Triandopolis Vieira.




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