Santo Agostinho disse que o deleite é a única fonte de boas
ações. Mas raramente experienciamos o verdadeiro deleite – um deleite que se
expressa naturalmente em ação harmoniosa e benevolente.
As palavras de Agostinho podem não transmitir a todos que as
ouvem a profundidade do sentido que elas contêm. O que sabemos é que pessoas
infelizes e frustradas são muitas vezes cansativas e difíceis. A frustração
amarga a mente e o desapontamento conduz ao cinismo. As experiências comuns do
dia-a-dia nos ensinam que problemas são criados na ausência de contentamento.
Sendo infeliz, fazemos os outros infelizes – diretamente ou por agirmos de
maneira desastrada.
Pode-se também dizer que o tipo de pessoa jovial também cria
problemas. Elas o fazem porque sua alegria é apenas superficial. A jovialidade
algumas vezes também surge da própria vaidade e da superconfiança, que não é o
que se quer dizer com a palavra “deleite”.
Um outro fato da vida diária é a dor. Quando há dor, quer
física ou mental, sabemos que alguma coisa não está certa. Queremos sem dúvida, estar livres dela. Por
outro lado, quando estamos contentes, quando nos regozijamos, sentimo-nos bem e
tudo está certo.
O que está errado com a dor e por que sentimos que tudo está
certo quando estamos felizes? Não precisamos de um filósofo ou de um lógico
para explicar essa verdade autoevidente. Cada pessoa sabe que é assim, porque
esse é um fato experienciado. Pessoas sábias disseram que a natureza da vida é
alegria, que a natureza de nosso ser é beatitude. Entretanto, a prova não está na
afirmação, está sim na experiência direta tanto nos incultos quanto dos
eruditos. Portanto, uma condição necessária: nosso ser é alegria e deleite
somente quando não está deturpado, não está desorientado e condicionado. Mas
ai! Raramente somos naturais. Pensamos demais sobre o que fazer, como ser, e
seguimos nosso planos e ambições em vez de aprendermos apenas a ser.
Infelizmente perdemos a pureza e a inocência de infância muito cedo. Somos
incapazes de simplesmente ser como as crianças pequenas.
Já que o deleite é a natureza de nosso ser, não somente de
nosso verdadeiro ser, mas do genuíno, inato estado de ser em qualquer lugar,
ficamos contentes sempre que estamos em contato com ele. Uma criança brinca, um
pássaro canta, um menino grita com alegria e nós também ficamos felizes.
Muitas vezes uma criança ou bebê começa a chorar quando vê
outra pessoa chorando. Esse é um fato curioso. Algumas vezes também nos adultos
as lágrimas surgem quando veem as lágrimas dos outros e mesmo quando nada é
dito, porque há aí uma comunicação sem palavras e uma compreensão do fato de
que a dor e as lágrimas não estão certas.
Sentimos felicidade como pura resposta à vida em qualquer
forma, mesmo nas assim chamadas coisas inanimadas. Numa bela descrição
Krishanmurti traz isso a nossos corações:
A torrente, à qual se juntavam outras pequenas torrentes,
serpenteava através do vale ruidosamente e o murmúrio nunca era o mesmo. Ele
tinha seu próprio tom, mas nunca desagradável, nunca um tom sombrio. As
torrentes pequenas tinham um tom mais agudo, tinham mais pedras e rochas, tinham
remansos tranquilos na sombra, rasos e com sombras dançantes e à noite tinham
um tom bem diferente, suave, gentil e hesitante [...] elas juntaram-se à
torrente principal mais ampla e mais rápida, que tinha um tom profundo e calmo,
mais digno [...] Podia-se admirá-las por horas e escutar seu murmúrio sem fim:
elas eram muito alegres e cheias de graça, mesmo a maior, embora ela tivesse que
manter certa dignidade. Elas vinham das montanhas, das alturas estonteantes
mais perto do céu e, portanto, mais nobres e mais puras; elas não eram
pretensiosas, mas continuavam seu caminho parecendo frias e distantes. No
escuro da noite elas entoavam seu próprio canto, enquanto só alguns o
escutavam. Era uma canção de muitas canções.
Tal resposta é uma libertação do ser. Uma passagem do
místico do século XVII Thomas Traherne descreve a exaltação destes momentos:
Você não desfruta o mundo corretamente até que o próprio mar
jorre em suas veias, até que você esteja vestido com o céu e coroado com as
estrelas; e você mesmo perceba ser o único herdeiro do mundo e mais que isso,
que os homens estão nele, e são cada um seu único herdeiro, bem como o é você.
Você não desfruta o mundo até que você possa cantar e regozijar-se com o
deleite em Deus, como os miseráveis fazem com o ouro e os reis com o os cetros.
Já que nossa natureza é ananda (bem-aventurança), o
nível profundo de alegria que é deleite, porque renunciamos a isso? Porque nos
contentamos com pouco? Porque nos frustramos tão facilmente? Porque resmungar e
criticar? O mundo dos homens é apanhado na armadilha da ânsia, do desejo que
resulta em inveja, competição pelo poder, conflito e infelicidade. O ser humano
médio está constantemente querendo algo que ele ou ela não tem. Ter uma bela
casa torna uma pessoa solitária. Então desejamos um lugar simples, como Maria
Antonieta e seus companheiros que brincavam de ser camponeses. Contudo, os que
vivem em lugares simples também anseiam pelo que não é seu.
Nos dias atuais, temos a teoria absurda de que deve haver
crescimento contínuo – da economia, da produção, do poder. Como o crescimento
pode não ter fim? Esse é apenas um sintoma de enfermidade psicológica, o desejo
de ser alguém além de si mesmo. Diz-se às crianças e jovens que eles devem
provar seu valor para que se ajustem à ilusão dos adultos. Eles devem passar
nos exames, obter promoções, ascender nas escala social. Devem exibir riqueza,
inteligência, habilidade e ser admirados. Todo o mundo está ávido por prazer,
procurando divertimento que não é um divertimento inocente, mas cobiças,
desejo. Isso é bastante diferente da maneira de vida de um yogue, descrita no Bhagavad
Gita como sendo plenamente harmonizada, profundamente satisfeita, não
dependente de nada para sua felicidade. Ele não diz: “Ficarei satisfeito se
obtiver o que quero”. O verdadeiro yogue tem uma mente que não se perturba,
sempre pacífica e feliz.
Porque não somos capazes de ter essa condição? Nenhum de nós
tem uma necessidade real. Há pessoas que estão famintas, sem casa, mas não
estamos falando para eles. Como mencionado antes, não precisamos de Vedanta, de
teoria para compreender que nosso ser real é bem-aventurança, pois sentimos que
tudo está bem quando estamos felizes. É necessária uma técnica especial apenas
para sermos nós mesmos? Isso parece bastante sem lógica.
A razão pode ser simplesmente que de modo obstinado nos
agarramos à ideia que é defendida sempre por outras pessoas – a de que somos
pessoas carentes. Se me considero um pedinte, tenho que pedir. O hábito da
comparação faz esta autoimagem - o
centro que está carente – sempre mais forte, e a carência aplica-se não somente
às coisas físicas, mas também ao desejo por reconhecimento, por aprovação, por
segurança, por importância e outras ambições.
Gostaria de sugerir que tentemos por algum tempo – talvez alguns
meses – viver sem a ideia de “eu quero”; “sou uma pessoa carente”. Simplesmente
abandonemos essa ideia e sejamos em vez de querermos. Isso pode ser difícil no
começo, porque temos os hábito de pensar em nós mesmos como necessitando chegar
a algum lugar, gostar de alguma coisa, ser alguém. Quanto mais tentarmos
usufruir e imaginar que necessitamos de distrações e excitamento, menos seremos
nós mesmos. Submetemo-nos às pressões do mundo externo e fortalecemos esses pensamentos
perniciosos. Mas, se meditarmos e olharmos mais fundo, que todo desejo é fútil,
que ele conduz à inquietação, à infelicidade e à frustração, muito cedo surgirá
um sensação de calma. A mente torna-se mais clara e mais viva e uma alegria
serena enche o coração.
O Bhagavad Gita usa a palavra prasada (II.64-65). Prasada
não é apenas graça de uma divindade como muitas vezes se supõe. Refere-se ao
claro estado da mente que conduz à renuncia da ideia de querer ao pensamento do
que devemos ser – a esposa deve ser assim; o empregado deve fazer mais ou
menos; os animais devem ser mais produtivos e dar mais leite; as situações
devem ser o que esperamos e assim por diante.
Podemos afastar esse pensamento, essa imagem pobre de si
mesmo? A eliminação de tal pensamento, embora ele esteja profundamente
encravado na consciência, é o começo da senda que conduz à mais alta beatitude,
como mostrará o experimento. Como podemos afastar esse pensamento? Não com
outro pensamento que diz: “Não devo desejar, quero ser uma pessoa que não
deseja”. Dessa maneira nada muda. Então, o que se pode fazer? Talvez nada. Nada
fazer talvez seja a melhor ação.
Isso não quer dizer que devemos continuar com nossas
obrigações normais do dia-a-dia. Cozinhando, trabalhando no escritório,
escrevendo, trabalhando no jardim, fazendo compras – ainda assim interiormente
podemos não estar fazendo nada. Há uma certa maneira de estar inativo, de não
fazer nada, mesmo quando haja ação externa. A inação é uma calma profunda
dentro de si, que não é afetada pela ação praticada externamente. Já lemos
sobre “ a ação na inação e a inação na ação” (Bhagavad Gita, IV.18).
Na senda da sabedoria não fazemos nada para renunciar à
ideia do desejo, porque num estado de desenvolvimento interior que é a
não-ação, o desejo se extingue. A beleza desse desenvolvimento em qualquer
ponto a que cheguemos – e, se prestarmos atenção, chegaremos lá – é que a mente
torna-se calma, viva e aguçada. Então toda vida é alegria, há uma riqueza de
deleite ao nosso redor, os tesouros da Grande Mente da Natureza. A natureza
revela o que é ser. Um pássaro é apenas isso, ele não está tentando ser outra
coisa. A planta também é apenas isso. Infelizmente, ao nos alienarmos da
natureza, perdemos a capacidade de apenas ser. Não permitimos também que outras
criaturas sejam apenas o que são.
Mesmo em aparentes dificuldades a vida concede benefícios.
Como diz a Aos Pés do Mestre: “Você deve suportar seu karma de bom grado,
qualquer que ele seja, tomando-o como uma honra o sofrimento que lhe couber,
porque isso mostra que o os Senhores do Karma pensam que você merece ajuda. Por
duro que seja, agradeça que ele não seja pior”.
Se quebramos um braço, devemos agradecer que não tenha sido
uma perna ou o quadril. Portanto, em cada circunstância há algo para agradecer
por não ter sido pior. Assim podemos aprender a olhar a vida sem frustração ou
desapontamento. Conforme observamos silenciosamente a vida e quando o
desenvolvimento nos capacita a agir sem ação, o deleite que é yoga acontece,
sem que tenhamos buscado.
Santos e místicos falaram sobre os supremos deleites da
liberação. Liberação de quê? Da personalidade, da autoimagem “eu sou isso” ou “eu
sou aquilo”. O Nirvana Shakta de Sri
Sankaracharya é uma canção de deleite. Cada um de nós pode aprender em nossa
vida diária a cantar com o autor: “ bão há nada para buscar ou possuir –
terras, famílias, propriedade, títulos. Nada precisa ser acrescentado ao ser
que é a quintessência do deleite.”
Ó alegria! Ó maravilha e deleite!
Ó sagrado mistério!
Minha alma, um espírito infinito!
Uma viagem da Divindade!
Uma luz pura e substancial!
Daquele Ser maior com o qual nada se parece!
Thomas Traherne (Meu Espírito)
Texto Escrito por
Radha Burnier