A Índia foi berço das principais correntes do pensamento
oriental, inclusive do Budismo, que depois emigrou. A cultura indiana
propriamente dita é “mestiça”, pois surgiu após a invasão dos ários (povo loiro
e de pele clara que vivia junto ao que hoje é o deserto de Gobi), que
penetraram pelo noroeste da Índia (região de Punjab) em 1500 a.C., onde eles se
mesclaram com os drávidas (povo de pele escura que habitava o vale do rio
Indus). Os invasores brancos constituíram-se como classe dominante e os nativos
como classe dominada. Dessas duas classes originou-se o sistema de castas,
inicialmente composto de quatro classes: os brahmanes (sacerdotes), os
kshatryas (nobres e guerreiros), os vaishyas (comerciantes e
agricultores) e os shudras (trabalhadores servos).
A Índia antiga quase não conheceu a fome, nela havia um equilíbrio entre o estatal e o
privado. Até mesmo a agricultura foi desenvolvida de um lado por aldeias
independentes, e de outro pelo Estado, em terras públicas com mão-de-obra
assalariada ou de apenados. Os indianos tinham uma agricultura diversificada e
uma alimentação muito rica, e cabia ao Estado prover a armazenagem e o
abastecimento de cereais. Extraía-se madeira dos bosques, domesticavam-se
elefantes nas selvas, pescava-se com redes, praticava-se a mineração, fundia-se
o cobre, mas não o ferro, e se fabricavam joias e tecidos. Os indianos viviam
nas aldeias, florestas e bosques ou cidades, mas a maioria da população habitava
aldeias de cem a quinhentas famílias.
A Índia tinha uma consciência nacional precária, porque se
compunha de pequenos estados independentes cujos reis eram chefes militares e
governavam com poder absoluto, mas buscando o apoio popular. No palácio real
vivia o rei, sua família, a corte, e havia ainda parte da administração
pública, podendo o povo, em determinados momentos, peticionar diretamente ao
monarca. Muitos reis foram sábios filósofos que no final da vida
transformavam-se em ascetas. Nenhuma cultura, como a hindu, baseou-se tanto na
sabedoria filosófica.
Podemos dividir os principais períodos da história da Índia,
aproximadamente, em:
1 – Século XXXVI ao XVI a.C.: fase de florescimento da
cultura do Indus.
2 – Século XVI ao VIII a.C.: invasão dos ários e surgimento
da cultura védica.
3 – Século VIII ao V a.C.: eclosão de conflitos no norte do
subcontinente entre pequenos estados surgidos da urbanização de cidades
fortificadas; aparecimento do Jainismo e do Budismo; o império Aquemênida anexa
com Ciro II a bacia do rio Kabul em 539 a.C. e com Dario I a bacia do rio Indus
em 522 a.C.
4 – Século IV ao III a.C.: em 327 a.C. chegada de Alexandre
Magno à bacia do Indus; a dinastia Maurya inaugura o primeiro estado universal;
o imperador Ashoka em 216 a.C. converte-se ao Budismo, que inicia sua expansão.
5 – Século II a.C. ao III d.C: os gregos invadem a Índia e
surgem principados ao noroeste; os sakas ocupam o vale do Indus; o império
Kushan domina o Hindu Kush até ser anexado pelo império Sassânida; surge um
comércio ativo com o mediterrâneo e a
influência cultural indiana se expande no sudeste da Ásia e na Indonésia.
6 – Século IV ao VI: período Gupta (320-535); o império é
restaurado ao norte da Índia; domínio dos hunos (510-527) que, mesmo
derrotados, permanecem, convertendo-se ao Hinduísmo.
7 – Século VII ao X: vários impérios com estados
subalternos; chegada dos árabes a Sind e dos turcos ao Hindu Kush; nascimento
do filósofo Shankara (Vedanta).
8 – Século XI ao XIV: presença muçulmana ao norte e em
Deccan; império Hindu ao Sul; nasce Ramanuja (Vedanta) no século XI e Nanak
(Sikhismo) no ano 1419.
9 – Século XV ao XVII: império Mongol.
10 – Século XVIII ao XX: os ingleses dominam gradualmente a
Índia a partir de 1757, até anexá-la ao império britânico de 1858 a 1947;
Gandhi lidera a resistência não-violenta aos ingleses; a Índia britânica
torna-se independente, dividindo-se em novas nações: Paquistão, Birmânia e
Ceilão.
A cultura hindu constituiu-se a partir da antiga religião
védica, assim chamada por basear-se em textos antiquíssimos, do segundo milênio
antes de Cristo, intitulados Vedas (Rig-Veda, Sama-Veda, Atharva-Veda e
Yajur-Veda), que foram o ponto de partida das escolas filosóficas indianas. A
palavra Veda significa “visão”, no sentido de “conhecimento”, e tal
literatura, sob forma de hinos, fórmulas e preceitos, contém já a ideia
fundamental de todas as filosofias da Índia: a profunda unidade entre homem,
divindade e natureza, realizada pela libertação das ilusões sensoriais que nos
escravizam. O Vedismo como religião caracterizou-se pelos sacrifícios rituais
que só podiam ser executados pelos brahmanes, que viveram então o seu
apogeu como casta, pela dependência das outras ao seu sacerdócio. Na época, o
deus principal era Brahma, que, aos poucos, foi cedendo espaço a Vishnu e
Shiva, formando os três em conjunto a Trimurti (trindade principal do hinduísmo).
Brahma era o deus dos brahmanes, de concepção muito
abstrata como deus criador e imagem e semelhança da alma (atman). Vishnu
é o “conservador dos mundos” que, no início de cada Grande Idade do Mundo,
encarna na Terra como animal ou homem, para ensinar a salvação à humanidade. As
principais encarnações de Vishnu foram como Rama e como Krishna (o “Cristo” da
tradição hindu), cuja epopeia é narrada no Bhagavad Gita, uma das mais
importantes obras da cultura indiana. Por último, Shiva é a representação do
poder transformador e destruidor, que incorpora em si o bem e o mal, o
masculino e o feminino, e possui múltiplas representações: o Senhor das Feras
(Pashu-Pati), o Grande Asceta (Mahadeva), o Bailarino Cósmico (Nataraja) etc.
O Hinduísmo equivale ao período em que os deuses védicos, de
origem ariana e de representação humana, cederam lugar a divindades mais
antigas, de culto dos nativos drávidas, ligadas a representações animais,
sexuais e simbólicas. Os deuses da Trimurti, por exemplo, aparecem
montados em vários animais: touro, cisne, falcão e serpente, e a divindade
passa a ser abordada também em seu aspecto feminino. Nessa época, surge uma
literatura nova, que reconhece os Vedas, mas que os reinterpreta à luz de um
outro espírito. Por exemplo, o sacrifício védico (tapas) torna-se sutil e simbólico:
respirar ritmicamente, meditar e extinguir desejos passam a ser formas de
sacrifício. Dos comentários aos textos religiosos védicos surgem as ideias que
formarão o substrato moral, cosmológico e metafísico hindu.
Os Upanishads são o conjunto de textos mais representativos
desse período. Comentando os Vedas, eles desenvolvem as ideias filosóficas, já
mais afastadas da mitologia, que constituem a base do pensamento indiano. Um
dos prováveis significados etimológicos de Upanishad é “sentar em
círculo”, uma possível alusão à transmissão oral do conhecimento feita de boca
a ouvido, de um mestre aos seus discípulos. Existem hoje em torno de 112
Upanishads, que inspiraram os textos (sutras) das escolas filosóficas hindus,
particularmente das que seguem a tradição védica.
Foram os Upanishads que, ao serem traduzidos para o persa e
deste para o latim, influenciaram a filosofia ocidental através de Schopenhauer
e Nietzsche. E também é neles que aparece pela primeira vez, de modo claro e
explícito, a doutrina do karma e da reencarnação. No Katha-Upanishad está escrito:
“Quem existe por si mesmo domina os sentidos voltados para
as coisas exteriores. O homem dá atenção a essas coisas exteriores, não às
internas, mas o sábio, desviando do mundo exterior seu olhar, desejando a
natureza imortal, contemplará a alma absoluta.
(...) O sábio não se entrega à aflição. Ele não ignora que a
alma com que se apercebem as imagens de sonho e da vigília é a mesma grande
alma que penetra tudo.”
Bibliografia: Iniciação ao Orientalismo, de Antônio
Henriques (editora Nova Era).