Chegou novamente o tempo de acender pequenas
lamparinas, de pendurar as lanternas coloridas nas casas, de fazer pújá,
de visitar os amigos e os vizinhos e de celebrar à volta da mesa familiar a
alegria que traz a festa do Diwali, o festival das luzes. A luz
representa a libertação da ignorância.
Existem várias suposições sobre a origem desse
festival. Alguns alimentam que ele celebra o casamento
de Lakshmi com Vishnu. Em Bengala, o festival é
dedicado a Kalí. É também comemorado como o dia em que Rama, de forma
triunfante, retornou para Ayodhya, após ter derrotado Ravana. Nesta
mesma data, também, Sri Krishna matou o demônio Narakásura.
A Índia é um país onde o calendário solar é uma
enorme lista de festivais celebrados em seus meses
respectivos. Divali, o festival das luzes, é um deles, e é celebrado
no início da estação de inverno na índia, acontece sempre entre o final de
outubro e a primeira quinzena de novembro, durante a lua crescente. Pobre ou
rico, velho ou jovem, religioso ou ateu, todos na Índia celebram Divali.
Casas são iluminadas, pintadas e especialmente decoradas para a ocasião. Por
todo o país, o festival é saudado com o mesmo entusiasmo pelas pessoas, tirando
a escuridão e recebendo a luz em suas vidas. Essa comemoração é muito
semelhante ao natal ocidental. Entretanto, a celebração do festival tem
significado diferente de estado para estado, segundo as lendas e os rituais de
cada um deles.

A palavra Divali é proveniente do
Sânscrito Dipávali, dipa significa luz e avali, fila,
traduzido, fileira de luzes. Por vezes é transliterado para o inglês
como Deepavali. A historia do Divali, ou mais
corretamente Dipávali, é repleta de lendas, baseadas nos Puránas. O tema
central dessas lendas está na vitória do bem sobre o mal, mas cada história
varia um pouco na forma da sua apresentação e conteúdo. A origem
do Dipávali remonta à proto-história, logo, de tradição
predominantemente oral. E, por algum mistério, a tradição desta celebração
épica continua viva há milhares de anos.
O épico:
De acordo com o Rámayana (caminho
de Ráma), o Dipáwali comemora o retorno
de Ráma (Ráma é um dos avatares de Vishnu), o
filho mais velho de Dasharatha de Ayodhya, do seu exílio
com Sítá e seu irmão Lakshamana Dasharatha, teve três esposas Koshalayá, Keykayí e Sumitrá e
quatro filhos Ráma, Bharata, Lakshamana e Shatrughan.
Ráma foi o filho da rainha Koshalayá e Bharata foi o
filho da Rainha Keykayi. Keykayi desejava
que Bharata fosse o próximo rei, enquanto o
rei Dasharatha desejava que fosse seu filho mais velho. Mas a
ciumenta Keykayi fez uso de dois desejos que o
rei Dasharatha tinha lhe concedido e enviou Ráma para o
exílio nas florestas, por um período de catorze anos. Durante esse
tempo, Ráma lutou e venceu tênues batalhas no sul, que separa o
sub-continente Indiano, (acredita-se que seja onde hoje se localiza o Srí
Lanka) matando Ravana, um rei demoníaco, que tinha violentamente
tomado, como esposa, Sítá. Divali marca sua volta vitoriosa para
seu reino junto com Hanuman, o Vanar (general) que o ajudara a
alcançar sucesso.

A população de Ayodhya iluminou toda a
cidade com dipika (lamparinas a óleo) e fogueiras para celebrar o
retorno de seu rei.
Na época devia ser um espetáculo magnífico de se
ver, pois não existia luz elétrica e cada casa era iluminada por uma ou várias
dessas lâmpadas; nas ruas, fileiras de fogueiras foram acesas para
recepcioná-los. Esta celebração ocorre 20 dias após o dusera,
no amavashya, o 15º dia mais escuro do mês Hindu, na noite da lua
nova Ashwini (ásho) (outubro / novembro).
O mantra que fazemos no Diwali:
Ayodhyavasi
Rám, Rám, Rám
Dasharathánandana
Rám
Pathita
pavana janaki jívana Sítá mohana Rám
As pessoas expressam sua felicidade
acendendo diyas ou dipikas de barro ou ferro e decorando as
casas para dar as boas vindas a Lakshmi, deusa da riqueza e
prosperidade, explodindo rojões e convidando o próximo para suas casas, para
banquetes grandiosos. A iluminação de lâmpadas é uma forma de pagar a cortesia
à divindade, para realização de saúde, riqueza, conhecimento, paz e fama, e isto
também expressa bondade. É uma época que marca o começo do Novo Ano Hindu, como
um novo começo para tudo.
Esse é apenas um dos aspectos desse festival
lendário de quatro dias de duração e cada um dos dias tem uma historia própria
para contar, cheia de rituais e mitos.
O Primeiro dia é
chamado Dhamteras ou Dhamtryodashi, que cai no décimo terceiro
dia do mês de Ashwin. A palavra Dhama significa riqueza.
Este dia tem grande importância para a comunidade rica. Acreditava-se que,
segundo o horóscopo, o filho mais velho do rei Hima morreria no
quarto dia de casamento, picado por uma cobra. Assim, naquele quarto dia de
casamento sua preocupada esposa colocou lâmpadas inumeráveis em todo lugar e
pôs todo o tipo de ornamentos, montes de ouro, e moedas de prata em uma pilha
grande na entrada da casa do marido. E ela continuou contando estórias e
cantando antigas canções através da noite. Quando Yama, o deus de
morte, chegou na forma de uma serpente, o brilho daquelas luzes cegou seus
olhos e ele não pôde entrar na câmara do Príncipe. Assim, ele subiu na pilha
dos ornamentos e moedas e ficou sentado a noite inteira, escutando
os mantras e as canções melódicas. Pela manhã, ele calmamente foi
embora. Assim a esposa salva seu marido e, desde então, este dia
de Dhamteras veio ser conhecido como o dia
de Yamadipadáma e lâmpadas são postas queimando por toda a noite, em
homenagem a Yama, o deus de Morte.
O Segundo dia é
chamado Narakachaturdashi ou Chhoti Diwali, que cai no
décimo quarto dia do mês de Ashwin.
Este é o dia de pré-divali, associado à
lenda do momento em que Krishna e sua
esposa Satyabhama vencem o demônio Naraka. De acordo com
os Puránas, Naraka, o filho de Bhudeví, adquiriu
de Bráhma uma força descomunal, após uma severa penitência (tapas),
desencadeando, imediatamente, um reino de terror na cidade de Kámarupa.
Os Devas incapazes de combater seu poder invencível recorreram
a Krishna. Mas Naraka não poderia ser morto, a não ser pelas
mãos de sua progenitora, Bhudeví, que já havia morrido há muito tempo.
Porém, Krishna pede a sua esposa, Satyabhama, que, embora não
saiba, é a reencarnação de Bhudeví, para ser a sua cocheira durante a
batalha com o exército de Naraka. Krishna força um confronto com
o próprio Naraka e finge ser mortalmente ferido por uma flecha dele;
em desespero, Satyabhama (Bhudeví) pega o arco de seu marido
(Krishna) e mira em Naraka, este, se valendo da sua
invulnerabilidade, sem saber que ela, era na verdade, a reencarnação de sua
mãe, é morto imediatamente, como previa a lenda. Esta lenda conta com uma moral
tipicamente indiana, de que mesmo os pais não devem hesitar em punir suas
crianças quando estão traçando o caminho errado, e que o bem da sociedade deve
sempre prevalecer acima das suas próprias ligações familiares.
O Terceiro dia do festival de Divali é o
mais importante, de Lakshmí - pújá, que é inteiramente dedicado
ao propósito da personalidade Lakshmí. Este é o dia
de Amavashya, também conhecido pelo nome de Chopada-pújá. O dia
em que Lakshmí anda pela noite escura de Amavashya. Acreditam,
também, que neste dia auspicioso, Krishna descartou-se de seu corpo.
Uma estória mais interessante, relacionada com este dia, está na narrativa
sobre um pequeno menino chamado Nachiketa, que acreditava
em Yama, o deus da morte. Neste dia ele encontrou Yama em pessoa
e ficou confuso, vendo a calma e sóbria postura dele. Yama explicou
ao Nachiketa que, neste dia de Amavashya, somente ao passar pela
escuridão da morte, o homem vê a luz da mais alta sabedoria e, então, sua mente
pode escapar da escravidão do medo da sua própria
mortalidade. Nachiketa compreendeu a importância da vida no mundo e o
significado da morte, todas as suas dúvidas foram tiradas e ele participou, por
inteiro e de coração das celebrações do Divali.

Bali Chakravarthya era o rei do mundo e seu
poderoso reino havia se transformado em uma ameaça aos Dêvas. Muito
preocupados, eles recorrem a Vishnu que, imediatamente, intercede na
forma de um avatara anão chamado Vamana. Como Bali era
famoso por manter sua palavra a qualquer custo e ser um rei justo para o seu
povo, o pequeno Vamana foi visitá-lo para fazer um pedido. - Por
favor, ó meu rei, peço-lhe que me conceda um pequeno pedaço de terra que eu
consiga cobrir com três passos destas minhas curtas pernas. O rei, como não via
nenhuma ameaça no pequenino, deu sua palavra. Este, por sua vez, transformou-se
em Vishnu, com sua forma infinita, e no primeiro passo, cobriu os
céus, no segundo, o mundo inteiro, e como não havia mais nenhum outro
lugar, Bali ofereceu a sua própria cabeça
para Vishnu pisar. Assim que Vishnu pisou sobre a sua
cabeça, Bali foi projetado para o sub-mundo, Pathala Loka,
mas pelo seu gesto de entrega, Vishnu concedeu
que Bali retornasse uma vez ao ano para a terra, para trazer a sua
sabedoria, iluminando milhares de lâmpadas para dispersar a escuridão da
ignorância e espalhar a radiação do amor e compaixão.
O Quarto dia é o final das Festividades
do Divali, chamado Kartika Shuddhi Padwa, também conhecido,
simplesmente, como Padwa ou VarshaPratipáda, que marca a
coroação do rei Vikramáditya o Vikarama-samvat começou
neste dia.
O dia que segue Amavasya, e é somente
nesse dia que Bali sairia de Pathala Loka para Bhu
Loka, é conhecido também como Bali Padyami.
Ao norte da Índia é executado o Govardhana-pújá.
O Vishnu Púrana conta que o povo de Gôkula comemorava
sempre após o final da estação das monções com um festival dedicado
a Indra. Mas, em um ano em particular, Krishna parou as preces
oferecidas a Indra que, irado, produziu um dilúvio para
submergir Gokula. Mas Krishna arrancou a
montanha Govardhana e usou-a como um guarda-chuva salvando a
cidade. Este dia é também observado como Annakuta e orações são
oferecidas nos templos.
O Quinto dia é uma
tradição pós-Divali, conhecido pelo nome de tikka ou Bhaiya-duj. Este
dia é observado como um símbolo de amor entre as irmãs e irmãos. Acredita-se
que no dia de Yamarája, o deus de morte visita sua
irmã Yamí e ela coloca a forma do auspicioso (swástika) em sua testa,
uma pasta feita de açafrão com arroz. Eles comeram, falaram, desfrutaram e
trocaram presentes especiais como símbolo de seu amor
mútuo. Yamarája anuncia que qualquer um que receber
o tilak de sua irmã, neste dia, terá proteção, por todo o ano, para
afastar todos os perigos. Desde então, é imperativo ao irmão ir para casa da
sua irmã para celebrar o Bhaiya Duj.
Feliz Diwali!