27/12/2011

Deleite como uma forma de yoga


Santo Agostinho disse que o deleite é a única fonte de boas ações. Mas raramente experienciamos o verdadeiro deleite – um deleite que se expressa naturalmente em ação harmoniosa e benevolente.

As palavras de Agostinho podem não transmitir a todos que as ouvem a profundidade do sentido que elas contêm. O que sabemos é que pessoas infelizes e frustradas são muitas vezes cansativas e difíceis. A frustração amarga a mente e o desapontamento conduz ao cinismo. As experiências comuns do dia-a-dia nos ensinam que problemas são criados na ausência de contentamento. Sendo infeliz, fazemos os outros infelizes – diretamente ou por agirmos de maneira desastrada.

Pode-se também dizer que o tipo de pessoa jovial também cria problemas. Elas o fazem porque sua alegria é apenas superficial. A jovialidade algumas vezes também surge da própria vaidade e da superconfiança, que não é o que se quer dizer com a palavra “deleite”.

Um outro fato da vida diária é a dor. Quando há dor, quer física ou mental, sabemos que alguma coisa não está certa.  Queremos sem dúvida, estar livres dela. Por outro lado, quando estamos contentes, quando nos regozijamos, sentimo-nos bem e tudo está certo.

O que está errado com a dor e por que sentimos que tudo está certo quando estamos felizes? Não precisamos de um filósofo ou de um lógico para explicar essa verdade autoevidente. Cada pessoa sabe que é assim, porque esse é um fato experienciado. Pessoas sábias disseram que a natureza da vida é alegria, que a natureza de nosso ser é beatitude. Entretanto, a prova não está na afirmação, está sim na experiência direta tanto nos incultos quanto dos eruditos. Portanto, uma condição necessária: nosso ser é alegria e deleite somente quando não está deturpado, não está desorientado e condicionado. Mas ai! Raramente somos naturais. Pensamos demais sobre o que fazer, como ser, e seguimos nosso planos e ambições em vez de aprendermos apenas a ser. Infelizmente perdemos a pureza e a inocência de infância muito cedo. Somos incapazes de simplesmente ser como as crianças pequenas.

Já que o deleite é a natureza de nosso ser, não somente de nosso verdadeiro ser, mas do genuíno, inato estado de ser em qualquer lugar, ficamos contentes sempre que estamos em contato com ele. Uma criança brinca, um pássaro canta, um menino grita com alegria e nós também ficamos felizes.

Muitas vezes uma criança ou bebê começa a chorar quando vê outra pessoa chorando. Esse é um fato curioso. Algumas vezes também nos adultos as lágrimas surgem quando veem as lágrimas dos outros e mesmo quando nada é dito, porque há aí uma comunicação sem palavras e uma compreensão do fato de que a dor e as lágrimas não estão certas.

Sentimos felicidade como pura resposta à vida em qualquer forma, mesmo nas assim chamadas coisas inanimadas. Numa bela descrição Krishanmurti traz isso a nossos corações:

A torrente, à qual se juntavam outras pequenas torrentes, serpenteava através do vale ruidosamente e o murmúrio nunca era o mesmo. Ele tinha seu próprio tom, mas nunca desagradável, nunca um tom sombrio. As torrentes pequenas tinham um tom mais agudo, tinham mais pedras e rochas, tinham remansos tranquilos na sombra, rasos e com sombras dançantes e à noite tinham um tom bem diferente, suave, gentil e hesitante [...] elas juntaram-se à torrente principal mais ampla e mais rápida, que tinha um tom profundo e calmo, mais digno [...] Podia-se admirá-las por horas e escutar seu murmúrio sem fim: elas eram muito alegres e cheias de graça, mesmo a maior, embora ela tivesse que manter certa dignidade. Elas vinham das montanhas, das alturas estonteantes mais perto do céu e, portanto, mais nobres e mais puras; elas não eram pretensiosas, mas continuavam seu caminho parecendo frias e distantes. No escuro da noite elas entoavam seu próprio canto, enquanto só alguns o escutavam. Era uma canção de muitas canções.

Tal resposta é uma libertação do ser. Uma passagem do místico do século XVII Thomas Traherne descreve a exaltação destes momentos:

Você não desfruta o mundo corretamente até que o próprio mar jorre em suas veias, até que você esteja vestido com o céu e coroado com as estrelas; e você mesmo perceba ser o único herdeiro do mundo e mais que isso, que os homens estão nele, e são cada um seu único herdeiro, bem como o é você. Você não desfruta o mundo até que você possa cantar e regozijar-se com o deleite em Deus, como os miseráveis fazem com o ouro e os reis com o os cetros.

Já que nossa natureza é ananda (bem-aventurança), o nível profundo de alegria que é deleite, porque renunciamos a isso? Porque nos contentamos com pouco? Porque nos frustramos tão facilmente? Porque resmungar e criticar? O mundo dos homens é apanhado na armadilha da ânsia, do desejo que resulta em inveja, competição pelo poder, conflito e infelicidade. O ser humano médio está constantemente querendo algo que ele ou ela não tem. Ter uma bela casa torna uma pessoa solitária. Então desejamos um lugar simples, como Maria Antonieta e seus companheiros que brincavam de ser camponeses. Contudo, os que vivem em lugares simples também anseiam pelo que não é seu.

Nos dias atuais, temos a teoria absurda de que deve haver crescimento contínuo – da economia, da produção, do poder. Como o crescimento pode não ter fim? Esse é apenas um sintoma de enfermidade psicológica, o desejo de ser alguém além de si mesmo. Diz-se às crianças e jovens que eles devem provar seu valor para que se ajustem à ilusão dos adultos. Eles devem passar nos exames, obter promoções, ascender nas escala social. Devem exibir riqueza, inteligência, habilidade e ser admirados. Todo o mundo está ávido por prazer, procurando divertimento que não é um divertimento inocente, mas cobiças, desejo. Isso é bastante diferente da maneira de vida de um yogue, descrita no Bhagavad Gita como sendo plenamente harmonizada, profundamente satisfeita, não dependente de nada para sua felicidade. Ele não diz: “Ficarei satisfeito se obtiver o que quero”. O verdadeiro yogue tem uma mente que não se perturba, sempre pacífica e feliz.

Porque não somos capazes de ter essa condição? Nenhum de nós tem uma necessidade real. Há pessoas que estão famintas, sem casa, mas não estamos falando para eles. Como mencionado antes, não precisamos de Vedanta, de teoria para compreender que nosso ser real é bem-aventurança, pois sentimos que tudo está bem quando estamos felizes. É necessária uma técnica especial apenas para sermos nós mesmos? Isso parece bastante sem lógica.

A razão pode ser simplesmente que de modo obstinado nos agarramos à ideia que é defendida sempre por outras pessoas – a de que somos pessoas carentes. Se me considero um pedinte, tenho que pedir. O hábito da comparação faz esta autoimagem -  o centro que está carente – sempre mais forte, e a carência aplica-se não somente às coisas físicas, mas também ao desejo por reconhecimento, por aprovação, por segurança, por importância e outras ambições.

Gostaria de sugerir que tentemos por algum tempo – talvez alguns meses – viver sem a ideia de “eu quero”; “sou uma pessoa carente”. Simplesmente abandonemos essa ideia e sejamos em vez de querermos. Isso pode ser difícil no começo, porque temos os hábito de pensar em nós mesmos como necessitando chegar a algum lugar, gostar de alguma coisa, ser alguém. Quanto mais tentarmos usufruir e imaginar que necessitamos de distrações e excitamento, menos seremos nós mesmos. Submetemo-nos às pressões do mundo externo e fortalecemos esses pensamentos perniciosos. Mas, se meditarmos e olharmos mais fundo, que todo desejo é fútil, que ele conduz à inquietação, à infelicidade e à frustração, muito cedo surgirá um sensação de calma. A mente torna-se mais clara e mais viva e uma alegria serena enche o coração.

O Bhagavad Gita usa a palavra prasada (II.64-65). Prasada não é apenas graça de uma divindade como muitas vezes se supõe. Refere-se ao claro estado da mente que conduz à renuncia da ideia de querer ao pensamento do que devemos ser – a esposa deve ser assim; o empregado deve fazer mais ou menos; os animais devem ser mais produtivos e dar mais leite; as situações devem ser o que esperamos e assim por diante.

Podemos afastar esse pensamento, essa imagem pobre de si mesmo? A eliminação de tal pensamento, embora ele esteja profundamente encravado na consciência, é o começo da senda que conduz à mais alta beatitude, como mostrará o experimento. Como podemos afastar esse pensamento? Não com outro pensamento que diz: “Não devo desejar, quero ser uma pessoa que não deseja”. Dessa maneira nada muda. Então, o que se pode fazer? Talvez nada. Nada fazer talvez seja a melhor ação.

Isso não quer dizer que devemos continuar com nossas obrigações normais do dia-a-dia. Cozinhando, trabalhando no escritório, escrevendo, trabalhando no jardim, fazendo compras – ainda assim interiormente podemos não estar fazendo nada. Há uma certa maneira de estar inativo, de não fazer nada, mesmo quando haja ação externa. A inação é uma calma profunda dentro de si, que não é afetada pela ação praticada externamente. Já lemos sobre “ a ação na inação e a inação na ação” (Bhagavad Gita, IV.18).

Na senda da sabedoria não fazemos nada para renunciar à ideia do desejo, porque num estado de desenvolvimento interior que é a não-ação, o desejo se extingue. A beleza desse desenvolvimento em qualquer ponto a que cheguemos – e, se prestarmos atenção, chegaremos lá – é que a mente torna-se calma, viva e aguçada. Então toda vida é alegria, há uma riqueza de deleite ao nosso redor, os tesouros da Grande Mente da Natureza. A natureza revela o que é ser. Um pássaro é apenas isso, ele não está tentando ser outra coisa. A planta também é apenas isso. Infelizmente, ao nos alienarmos da natureza, perdemos a capacidade de apenas ser. Não permitimos também que outras criaturas sejam apenas o que são.

Mesmo em aparentes dificuldades a vida concede benefícios. Como diz a Aos Pés do Mestre: “Você deve suportar seu karma de bom grado, qualquer que ele seja, tomando-o como uma honra o sofrimento que lhe couber, porque isso mostra que o os Senhores do Karma pensam que você merece ajuda. Por duro que seja, agradeça que ele não seja pior”.

Se quebramos um braço, devemos agradecer que não tenha sido uma perna ou o quadril. Portanto, em cada circunstância há algo para agradecer por não ter sido pior. Assim podemos aprender a olhar a vida sem frustração ou desapontamento. Conforme observamos silenciosamente a vida e quando o desenvolvimento nos capacita a agir sem ação, o deleite que é yoga acontece, sem que tenhamos buscado.

Santos e místicos falaram sobre os supremos deleites da liberação. Liberação de quê? Da personalidade, da autoimagem “eu sou isso” ou “eu sou aquilo”.  O Nirvana Shakta de Sri Sankaracharya é uma canção de deleite. Cada um de nós pode aprender em nossa vida diária a cantar com o autor: “ bão há nada para buscar ou possuir – terras, famílias, propriedade, títulos. Nada precisa ser acrescentado ao ser que é a quintessência do deleite.”

Ó alegria! Ó maravilha e deleite!
Ó sagrado mistério!
Minha alma, um espírito infinito!
Uma viagem da Divindade!
Uma luz pura e substancial!
Daquele Ser maior com o qual nada se parece!
Thomas Traherne (Meu Espírito)

Texto Escrito por  Radha Burnier

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