08/11/11

Insatisfação Sexual e a Obliteração do Ser.



Antes uma breve definição sobre satisfação.

Buscando rapidamente em alguns dicionários pude encontrar as seguintes palavras que definem satisfação: saciedade, contentamento, realização e retribuição.
Ok.

Tendo esta definição como base, me parece que as pessoas andam bem insatisfeitas com o sexo.

Insatisfeitas, mas não infelizes de um modo objetivo e consciente, é claro. Insatisfeitas e irrequietas comportamentalmente.

Não percebo saciedade, contentamento, realização e muito menos retribuição em relação ao sexo por parte dos seres humanos.

Há esta fome interminável, este vazio impreenchível, uma síncope no adágio senciente. Reflexo disso está na fugacidade das relações sexuais, na banalização, na glamorização ou repulsão extrema, na comercialização, e na forma como vem sendo explorado, e estampado, o sexo pela sociedade contemporânea.

Sexo é pecado? É antinatural? É óbvio que não. Sexo é função biológica? Sim, em termos biológicos. Por mais que você utilize preservativos, anticoncepcionais, se relacione com um parceiro de mesmo sexo, utilize brinquedos sexuais ou se masturbe; toda vez que faz sexo, o seu corpo se prepara pra gerar uma nova vida. Esta pode não ser sua intenção, mas o seu corpo, assim como uma máquina programada para produzir X efeitos de acordo com X estímulos, age conforme sua biologia. Se fosse o contrário, nós nunca precisaríamos dos tais métodos contraceptivos. Pois só nos reproduziríamos quando assim desejássemos.

E é aí que reflito. Por que não temos o domínio completo e consciente sobre nossas funções biológicas? O corpo não é meu? Não sou “dono” de meu corpo? Se este corpo não é meu, porque me percebo nele e sendo ele? Porque só tenho controle consciente de algumas funções de meu corpo?

O ser humano, diferente dos animais, consegue, em certo nível, negar algumas funções biológicas, até driblá-las, em prol de alguma escolha sua – como obter prazer sexual sem objetivar a reprodução da espécie. Os golfinhos, assim como os seres humanos, podem fazer sexo apenas por prazer, mas não conseguem driblar a função biológica (se estiver errado, biólogos, por favor, me corrijam).

Por que isso é diferente conosco, seres humanos?

Porque o ser humano não é uma unidade, mas sim uma composição. Nós somos Seres que vivem dentro de animais humanos. O humano é um animal que está atado às leis da natureza, já o ser é uma consciência que toma o humano por um veículo de aprendizado. Nós perdemos a unidade (encontrada em toda a natureza) e nos tornamos duais.

Numa forma mais ilustrativa, recorrendo a um mito bem difundido, humano é o corpo que Deus moldou no barro e o ser é o sopro divino que animou o corpo humano.  

Ser é o que conhece e humano é o que permite ao ser conhecer.

E qual é o papel do ser?

O papel do ser é o de servir (ser/vir). E como o ser pode servir? Através do aprendizado, do autoconhecimento, do vir a ser. Do perfeito equilíbrio entre o ser e o humano.

É por isso que há tanta insatisfação no sexo.

Em nossa sociedade as pessoas estão mais preocupadas em possuir do que em servir. O cocheiro (ser) está dormindo e deixando os cavalos (desejos) levarem a carruagem (humano) para a beira do penhasco em busca de capim fresco.

E não é só no sexo! Utilizo aqui o sexo como exemplo, pois é um tema mais suscetível ao desejo de posse (possuir conhecimento para possuir algo). Grande parte de nossa sociedade está estruturada nesse desequilíbrio, em possuir ao invés de servir.

Nós não compramos algo para que possamos utilizá-lo em prol do servir, mas sim de possuir. Nós não namoramos, casamos, ficamos e o que mais existir em termos de relacionamento humano, com a intenção de servir ao próximo. Mas sim com a intenção de possuir alguém que preencha esse vazio que ocupa nosso âmago desde o momento em que abdicamos do nosso ser.

É óbvio que o sexo é insatisfatório, pois não há a retribuição, contentamento e nem a realização. Há sim uma tributação, o desejo de possuir mais, a fome e a aniquilação do ser

E não importa se o orgasmo dura mais de uma hora. Não importa se seu sexo é tântrico (me refiro ao sexo tântrico vendido como “super sexo”). Perceba a própria origem e significado da palavra Tantra: do sânscrito, significa “o que conduz ao conhecimento”. Logo, é essencial o ser, pois só o ser conhece!

Se duas pessoas se relacionam sexualmente e procuram servir integralmente uma a outra, não tem como o sexo ser desgastante ou insatisfatório. Como ambas estão guiando o humano pelo servir e não pelo possuir, aí temos uma perfeita retribuição. Saciedade. Contentamento enfim. O ser possui o livre arbítrio e a consciência. Não há desequilíbrio!

A insatisfação no sexo (bem como em todos os demais aspectos da vida humana) é facilmente resolvida pela simples, e natural, mudança da atitude de possuir pela atitude de servir!

“Quem não vive para servir, não serve para viver.” (Mahatma Gandhi)
“Não devemos servir de exemplo para ninguém. Mas podemos servir de lição.” (Mário de Andrade)
“Sentir-me-ia feliz em servir; o que me repugna é servirem-se de mim.” (Alexander Griboiedov)
“A grandeza do amor repousa invariavelmente na conjugação do verbo servir.” (Chico Xavier)

.’.

Lembrando que este artigo é uma reflexão minha, que compartilho aqui no simples intuito de servir. Não é uma sentença, muito menos um tratado sobre a conduta perfeita. Mas o que reflito, atualmente, sobre o que pode ser um desequilíbrio na harmonia do ser humano. Fique livre para discordar e servir este espaço com seu conhecimento e argumentos. Aprender e compartilhar é o lema deste espaço. E para isso é preciso que sempre estejamos cientes de que os melhores encerramentos são as vírgulas e as interrogações e não os pontos finais e exclamações.

Namastê!

Texto escrito por Leonardo Triandopolis Vieira 

2 comentários:

  1. Inteligente e educada observação. Concordo 100%.

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  2. Adorei! Um ponto de vista realmente muito bom e totalmente fora das lentes que eu costumo utilizar para a percepção!

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