Antes uma breve definição sobre satisfação.
Buscando rapidamente em alguns dicionários pude encontrar as
seguintes palavras que definem satisfação: saciedade, contentamento, realização
e retribuição.
Ok.
Tendo esta definição como base, me parece que as pessoas
andam bem insatisfeitas com o sexo.
Insatisfeitas, mas não infelizes de um modo objetivo e
consciente, é claro. Insatisfeitas e irrequietas comportamentalmente.
Não percebo saciedade, contentamento, realização e muito
menos retribuição em relação ao sexo por parte dos seres humanos.
Há esta fome interminável, este vazio impreenchível, uma
síncope no adágio senciente. Reflexo disso está na fugacidade das relações
sexuais, na banalização, na glamorização ou repulsão extrema, na
comercialização, e na forma como vem sendo explorado, e estampado, o sexo pela
sociedade contemporânea.
Sexo é pecado? É antinatural? É óbvio que não. Sexo é função
biológica? Sim, em termos biológicos. Por mais que você utilize preservativos,
anticoncepcionais, se relacione com um parceiro de mesmo sexo, utilize
brinquedos sexuais ou se masturbe; toda vez que faz sexo, o seu corpo se prepara
pra gerar uma nova vida. Esta pode não ser sua intenção, mas o seu corpo, assim
como uma máquina programada para produzir X efeitos de acordo com X estímulos,
age conforme sua biologia. Se fosse o contrário, nós nunca precisaríamos dos
tais métodos contraceptivos. Pois só nos reproduziríamos quando assim
desejássemos.
E é aí que reflito. Por que não temos o domínio completo e
consciente sobre nossas funções biológicas? O corpo não é meu? Não sou “dono”
de meu corpo? Se este corpo não é meu, porque me percebo nele e sendo ele?
Porque só tenho controle consciente de algumas funções de meu corpo?
O ser humano, diferente dos animais, consegue, em certo
nível, negar algumas funções biológicas, até driblá-las, em prol de alguma
escolha sua – como obter prazer sexual sem objetivar a reprodução da espécie.
Os golfinhos, assim como os seres humanos, podem fazer sexo apenas por prazer,
mas não conseguem driblar a função biológica (se estiver errado, biólogos, por
favor, me corrijam).
Por que isso é diferente conosco, seres humanos?
Porque o ser humano não é uma unidade, mas sim uma
composição. Nós somos Seres que vivem dentro de animais humanos. O
humano é um animal que está atado às leis da natureza, já o ser é
uma consciência que toma o humano por um veículo de aprendizado. Nós perdemos a
unidade (encontrada em toda a natureza) e nos tornamos duais.
Numa forma mais ilustrativa, recorrendo a um mito bem
difundido, humano é o corpo que Deus moldou no barro e o ser é o
sopro divino que animou o corpo humano.
Ser é o que conhece e humano é o que permite
ao ser conhecer.
E qual é o papel do ser?
O papel do ser é o de servir (ser/vir).
E como o ser pode servir? Através do aprendizado, do
autoconhecimento, do vir a ser. Do perfeito equilíbrio entre o ser
e o humano.
É por isso que há tanta insatisfação no sexo.
Em nossa sociedade as pessoas estão mais preocupadas em
possuir do que em servir. O cocheiro (ser) está dormindo e deixando os
cavalos (desejos) levarem a carruagem (humano) para a beira do
penhasco em busca de capim fresco.
E não é só no sexo! Utilizo aqui o sexo como exemplo, pois é
um tema mais suscetível ao desejo de posse (possuir conhecimento para possuir
algo). Grande parte de nossa sociedade está estruturada nesse desequilíbrio, em
possuir ao invés de servir.
Nós não compramos algo para que possamos utilizá-lo em prol
do servir, mas sim de possuir. Nós não namoramos, casamos, ficamos e o que mais
existir em termos de relacionamento humano, com a intenção de servir ao
próximo. Mas sim com a intenção de possuir alguém que preencha esse vazio que
ocupa nosso âmago desde o momento em que abdicamos do nosso ser.
É óbvio que o sexo é insatisfatório, pois não há a
retribuição, contentamento e nem a realização. Há sim uma tributação, o desejo
de possuir mais, a fome e a aniquilação do ser.
E não importa se o orgasmo dura mais de uma hora. Não
importa se seu sexo é tântrico (me refiro ao sexo tântrico vendido como “super
sexo”). Perceba a própria origem e significado da palavra Tantra: do sânscrito,
significa “o que conduz ao conhecimento”. Logo, é essencial o ser, pois
só o ser conhece!
Se duas pessoas se relacionam sexualmente e procuram servir
integralmente uma a outra, não tem como o sexo ser desgastante ou
insatisfatório. Como ambas estão guiando o humano pelo servir e
não pelo possuir, aí temos uma perfeita retribuição. Saciedade. Contentamento
enfim. O ser possui o livre arbítrio e a consciência. Não há
desequilíbrio!
A insatisfação no sexo (bem como em todos os demais aspectos
da vida humana) é facilmente resolvida pela simples, e natural, mudança da
atitude de possuir pela atitude de servir!
“Quem não vive para servir, não serve para viver.” (Mahatma Gandhi)
“Não devemos servir de exemplo para ninguém. Mas podemos servir de lição.” (Mário de Andrade)
“Sentir-me-ia feliz em servir; o que me repugna é servirem-se de mim.” (Alexander Griboiedov)
“A grandeza do amor repousa invariavelmente na conjugação do verbo servir.” (Chico Xavier)
.’.
Lembrando que este artigo é uma reflexão minha, que
compartilho aqui no simples intuito de servir. Não é uma sentença, muito menos
um tratado sobre a conduta perfeita. Mas o que reflito, atualmente, sobre o que
pode ser um desequilíbrio na harmonia do ser humano. Fique livre para discordar
e servir este espaço com seu conhecimento e argumentos. Aprender e compartilhar
é o lema deste espaço. E para isso é preciso que sempre estejamos cientes de
que os melhores encerramentos são as vírgulas e as interrogações e não os
pontos finais e exclamações.
Namastê!
Texto escrito por Leonardo Triandopolis Vieira






















Inteligente e educada observação. Concordo 100%.
ResponderExcluirAdorei! Um ponto de vista realmente muito bom e totalmente fora das lentes que eu costumo utilizar para a percepção!
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