03/11/2011

A felicidade não é real.


TAMPOUCO A INFELICIDADE.

O que é a felicidade?

Para um ocidental de classe média é ter muito dinheiro para poder comprar seus desejos materiais; para um homossexual é ter sua sexualidade e sua pessoa respeitadas; para um morador do deserto pode ser um copo d’água; Para um religioso extremista pode ser aniquilar todos aqueles que não se encaixam na sua concepção de fé; Para um... Enfim,  a concepção de felicidade é tão diversificada e vasta quanto o número de seres humanos caminhando sobre o solo deste planeta. Faça um teste, pergunte para as pessoas que moram, ou vivem, próximas a você o que é felicidade. Aposto que você não encontrará duas definições iguais. Similares sim, mas iguais muito dificilmente.  

E a infelicidade? Dentro deste horizonte, é a mesma coisa que ocorre com a felicidade. Cada um terá sua própria concepção. Sua idiossincrasia.

Para entender melhor se a felicidade e a infelicidade são reais ou não, é preciso, antes, discorrer sobre o que é “existir”.

Acredito que o problema não seja o “existir” por si só, mas sim o emprego, equivocado, como sinônimo de “real” (Realidade). Etimologicamente a palavra existir vem do latim  ex(s)istere; que significa “sair de”, “nascer de”, “mostrar-se de”, “manifestar-se de”. Aí  refletimos: sair, nascer, mostrar-se, manifestar-se, de onde? De quem? Do quê?  Para a maioria das culturas e religiões seria de Deus. Daí, religião ser uma palavra derivada do latim religare. Que significa “ligar-se a”, “retornar a”, “voltar a”. E o que seria Deus? Desconsiderando as recentes religiões que tomam Deus por uma entidade antropomórfica, veremos que as antigas e ancestrais tradições consideram e classificam Deus como a Realidade Última. A única coisa Real. O incognoscível. O infinito, de onde todas as coisas passam a existir, ou seja, se tornam finitas (ilusórias) – com um início, meio e fim.

Os hindus chamam a tudo isso que consideramos “real” (mundo, universo, sentimentos, nascimento, morte, eu, você...) de Maya, ilusão. Eles não negam que nós existimos, mas afirmam que não somos reais. Nos Vedas lemos que Brahman é a única realidade, a única coisa real. Brahman não é Brama. Brahman é o não-manifesto dos budistas, que se manifesta em Ishvara. Ishvara seria o equivalente de Brama dos hindus, Demiurgo dos gnósticos e o Deus dos cristãos (da forma como o culto exotérico o apresenta).

Se Deus (Brahman, o Incognoscível...) é a única Realidade, tudo o que existe não é real. A existência vem da realidade, mas não é a realidade per si. Tudo é ilusão, pois ilusão é tudo aquilo que desvanece. Que uma hora acaba. Que não se sustenta infinitamente. Nossa vida teve um início (nascimento) e terá um fim (morte), este universo teve um início (Big Bang [em teoria]) e também terá um fim (Big Crunch [em teoria]), a felicidade teve um início (quando a infelicidade cessou) e terá um fim (quando a infelicidade começar). Tudo é um ciclo ilusório.

Só levantei esta questão, pois os seres humanos, muito preocupados em existir e com a existência, se cegam em busca da felicidade e se matam com medo da infelicidade. Por que se cegar e se matar por coisas irreais?

Figuradamente é como se o oceano fosse a Realidade e suas ondas a Existência. Não é possível falar ou provar que o oceano seja uma onda, mas sabe-se que ela veio e foi formada por ele. Uma onda faz parte do oceano, mas o oceano não é uma onda. Uma onda se faz e desfaz a todo momento,  o oceano é sempre o mesmo. É preferível se agarrar a uma onda ou  se entregar ao oceano? Mesmo que se agarre a uma onda, chegará um momento em que ela irá se desmanchar e, mesmo que não queira, o levará pra dentro do oceano.

Então não se agarre a felicidade alguma e nem tema nenhum tipo de infelicidade! Ambas irão se desintegrar no oceano da Realidade.  Apenas aprenda e caminhe igualmente com ambas, sem se apegar! Felicidade e infelicidade existem, mas não são reais!

Não seja como uma represa, que retém suas águas em prol de coisas finitas e irreais. Mas sim um rio que flui constantemente, e não importa o curso que tome, não importa as coisas finitas que se usufruam de suas águas, retorna integralmente e livremente, sem se apegar a nada, para o oceano! Mas não deixa de existir, não deixa de cumprir sua função, não deixa de ser o que é!

Namastê! 
Texto de Leonardo Triandopolis Vieira.

3 comentários:

Velho.. um grande conselho.. tente ser mais especifico em suas citações e referir qual linha de pensamento está citando.. dizer coisas do tipo "os hindus" é bem problematico já que dentro da cultura hindu existem varias escolas de interpretação (não estou falando nem só dos darshanas) e muitas delas são antagonicas...

Essa coisa de que tudo é maya tambem é bem questionavel, como o mundo pode ser ilusorio (so por ser finito) sendo que as coisas não realmente são.. maya segundo o que estudei é tomar as coisas pelo que não são, ou seja, não é uma qualidade do mundo ser ilusorio e sim como voce vai se relacionar com este mundo. ilusao eh um fenomeno dos seu processo senso-perceptivo.. Brahman é tudo, portanto é tambem o mundo.. o começo, o meio o fim, ou voce realmente acredita nessa coisa de matrix? que especie de inteligenciia sádica e entediada colocaria sapiencia em uma configuracao de existencia que deve ser abandonada pois é apenas fonte de sofrimento.. essa filosofia de postergação de deixar tudo pra outro mundo, outra existencia tem seus pontos baixos na minha opiniao.

Desde quando conselhos tem tamanho? rsrsrs (atente: isso foi apenas uma brincadeira!) Este meu texto não tem o intuito de ser um texto acadêmico, muito menos um tratado impecável impondo alguma "verdade universal e absoluta". Mas sim a exposição de algumas reflexões minhas. A generalização de algumas referências é proposital. Pois faz com que a inércia do leitor seja rompida (como aconteceu com você), faz com que o receptor passivo pare e fale: - ei, mas "hindus" está muito generalizado e coisas do tipo. E, assim, compartilhe o seu ponto de vista. Não acredito na matrix e nem na não-matrix. Aliás eu procuro não acreditar em nada, mas sempre estar aberto a tudo. Perceba que em nenhum momento falo que existe alguma "inteligência" por detrás de tudo, mas sim de algo incognoscível e infinito, que se for limitado a atributos como "inteligência" e similares perde a razão de ser... Mas enfim, fico feliz que compartilhe seu ponto de vista, esse é um dos objetivos deste espaço para comentários. Mas se eu pudesse ter a minha própria gramática, escreveria apenas com vírgulas e pontos de interrogação e não como exclamações e pontos finais. :) Namastê!

Olá Leonardo, realmente não há um ponto final que a mente possa atingir, quanto a essas questões transcendentais. Mas penso que na minha atual condicão , necessito muito participar criativamente desta Maya que me foi dado experimentar. É a parte que me cabe...Abraco, Claydée

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