Uma bem conhecida sentença em um dos Upanishads, afirma que
a mente, por si só, é causa, tanto da escravidão, como da libertação do homem.
A maioria das pessoas acreditam que está presa pelas circunstâncias e agem como
se fossem vítimas, porque não compreendem as forças e condições existentes em
torno delas. O homem primitivo, que observava o relâmpago e o trovão, o
desaparecimento do sol e a descida da escuridão sobre a terra e vários outros
fenômenos, sentia-os como ameaças e que ele devia apaziguar os deuses. E, para
isso, recorria a feiticeiros, aprendia encantamentos, erigia colunas totêmicas
e fazia todo tipo de coisas para afastar o mal que ele acreditava pudesse
sobrevir. Os mesmos fenômenos, vistos pelo homem moderno, não geram nele mais o
medo, porque o conhecimento o fez compreender as leis e forças operando por
detrás dos fenômenos.
Há uma teia de forças na natureza que cria as condições nas
quais as pessoas vivem. Elas incluem forças como a gravidade, a eletricidade e
o magnetismo. O homem sabe como essas forças funcionam e é capaz de predizer as
condições que serão criadas. Pode controlar as circunstâncias em torno dele,
alterando e regulando tais leis. O conhecimento habilita-o a mudar as condições
e a não considerar a si mesmo como vítima delas. Esta é a posição do homem
agora em relação àquela parte do mundo fenomênica que passou a compreender.
Voos à Lua e comunicação através de satélites com distantes
partes da terra são maneiras de conquistar o ambiente. Mas o conhecimento do
homem, mesmo agora, pertence a um campo muito limitado. Os homens brilhantes
que podem manipular a natureza e neutralizar as forças de gravidade, etc., são
também vítimas das circunstâncias no campo psicológico. A ignorância torna-os
temerosos e inseguros e tão escravizados pelas forças interiores, quanto o
homem primitivo o era em relação às forças externas, físicas. No campo
psicológico também, as forças criam as condições e aquele que quiser ser livre
e destemido, deve compreender as leis que operam. Uma das três grandes verdades
proclamadas no livro “O Idílio do Lótus Branco”, declara:
“CADA HOMEM É SEU ABSOLUTO LEGISLADOR, O DISPENSOR DE GLÓRIA OU ESCURIDÃO PARA SI MESMO, O DECRETADOR DE SUA VIDA, RECOMPENSA E PUNIÇÃO”.
Em outras palavras, cada homem cria as condições ao seu
redor, o seu carma. A escravidão nada mais é senão a prisão
construída pelas forças cármicas que cada um cria. A escravidão diz-se estar no
ciclo de nascimentos e mortes, a compulsão para o sofrer. São modos diferentes
de afirmar a mesma coisa.
A maioria das pessoas acredita que pode escapar das consequências
de seus atos, mentais e físicos. Existem algumas que reconhecem, pelo menos
teoricamente, que não é possível escapar das consequências das forças que
liberam, mas não creem realmente nisso. Se acreditassem no carma, seriam
extremamente cuidadosas acerca de tudo o que fazem, o que pensam e sentem, seu
relacionamento com as outras pessoas e assim por diante. A fraqueza da crença é
tornada evidente pela negligência na conduta. É possível escapar às consequências
de um ato no mundo físico durante o curso de uma vida. No caso de uma pessoa
que rouba, ela pode ser presa imediatamente ou sua falta pode permanecer
encoberta durante muito tempo; mas não pode escapar dos resultados
indefinidamente, pois “os moinhos de Deus moem lentamente”, trituram até
pedaços extraordinariamente pequenos. No entanto, o que é mais sério não é a
descoberta do roubo e a pessoa ser presa, mas o efeito da consequência imediata
no campo psicológico.
Aquele que engana outra pessoa e pensa que pode ir embora,
ilude-se dolorosamente. Muitas pessoas encobrem fatos ou os deturpam ao
relatá-los, pretendendo serem diferentes do que são. Não é raro se mostrar uma
face diferente sob circunstâncias diferentes. Tudo isso acontece porque no
fundo da mente há um sentimento de que se pode escapar. Na verdade, porém, há um
efeito imediato quando há qualquer ação. Quando há um ato de enganar, dá
surgimento a um certo “momento” na psique da pessoa. Esta é a imediata, mas
invisível consequência. Há muitas coisas na psique que não são percebidas. Há
as memórias conscientes e também as inconscientes. Se você encontra alguém a
quem não vê ou na qual você não pensa há anos em sua mente consciente, pode não
haver memória dessa pessoa, se ela é desta ou daquela maneira. Tudo desaparece.
Posteriormente você a encontra e a reconhece. Esse reconhecimento significa
que, embora a mente consciente não mantivesse nenhuma memória, a inconsciente
manteve-a e essa recordação veio à superfície. O reconhecimento implica em
comparar como agora ela aparece, seu comportamento, seus gestos, etc.
Contudo, há memórias mais profundas. As pessoas têm
recordações da infância que estão além da lembrança, exceto sob hipnose ou em
momentos de crise. Atrás do limiar da memória consciente há toda uma área, como
um iceberg oculto. Se a energia é liberada na psique, o “momento” também pode
submergir abaixo do nível consciente. Quando há uma oportunidade adequada, ele
consegue manifestar-se. Por exemplo, quando uma ação é fraudulenta, como
dissemos antes, um “momento” é criado, que pode estar oculto e dormente, abaixo
do nível consciente. Num determinado instante, transforma-se num impulso para
fazer o mesmo tipo de coisa. Isto se torna um círculo vicioso, de escravidão; a
ação que cria a tendência, a tendência que impele à ação, seja ela de fraude,
medo ou inveja, ou uma mistura de vários tipos.
No ser humano existem inúmeras tendências “empurrando” a
pessoa indiretamente, queira ou não, saiba ou não. Quando uma pessoa sofre de
timidez ou medo, cada sombra a faz sentir que pode haver um inimigo oculto.
Quando há orgulho, um homem imagina que há intenção de ofendê-lo, mesmo diante
de uma afirmação inocente a seu respeito. Além disso, a mente inconsciente
conecta o sentimento com características externas pertencentes à outra pessoa –
de quem o perigo ou o insulto é pensado decorrer. Assim, as pessoas têm reações
compulsivas contra negros ou brancos, judeus, etc. e contra todos os tipos de
coisas. “Momento”, tendências e compulsões vêm à tona no campo da ação, não
apenas do passado recente, mas das profundezas até de nossa natureza animal. A
maioria das pessoas age de acordo com esse profundo condicionamento.
Enquanto há compulsão de dentro, um “momento” sobre o qual
não há controle, não há liberdade de modo algum. É a escravidão que a
mente cria, porque está num estado de não apercebimento, já que não se dá ao
trabalho de descobrir o que está acontecendo a si mesma.
Os condicionamentos da mente criam enormes problemas – de
cor, nacionalismos, diferenças raciais, etc. Por causa desse condicionamento
existente, ela identifica-se com a família, a comunidade, a religião, etc. Mas
a mente pode libertar-se se vê que está criando círculos dentro dos quais está
escravizada. Não é necessário que alguém seja vítima de qualquer circunstância.
Em lugar de criar “momentos” de insinceridade ou medo através do não apercebimento,
a pessoa pode gerar outras energias, tais como paciência, afeição e calma.
Estas regras surgem através do apercebimento e têm uma qualidade de
estabilidade. Não são reações.
Atrás da vigilância e do cuidado exercidos na vida diária, a
pessoa pode começar a perceber o que é o estado de liberdade. Dentro da mente
há possibilidades de escravidão, como de liberdade. Não se tem de rezar a algum
Deus, encontrar um sacerdote, para libertar a si mesmo, mas apenas descobrir o
que está profundamente no interior. O Bhagavad Gita fala do homem estável, que
não é dependente, porque as circunstâncias não têm poder sobre ele. Isto é o
que todos os seres humanos têm de aprender. Pela ativa vigilância, a pessoa
cessa de ser vítima das condições e torna-se uma fonte de energia espiritual.
Radha
Burnier



3 comentários:
poder me desprender de uma figura divina e me responsabilizar mais por minhas dificuldades e conquistas é um processo que está acontecendo naturalmente na minha vida.
O texto basicamente me mostrou que os caminhos que estou levando não estão errados, achava que essa dúvida que tinha praticamente provava que eu estava errado, porém me senti bastante reconfortado, obrigado.
Essa música é ótima: http://www.youtube.com/watch?v=OObysnnaLyk&feature=related
"...Sou eu que atendo minhas próprias preces, sou eu que escuto meus próprios gritos..."
Legal o post!
Realmente o verdadeiro inimigo é nós mesmos...
E a maior dificuldade é saber lidar com o q esta dentro de vc e com o q esta fora. É com os 2 q vc ganha experiências e cresce como pessoa ou é com os 2 q vc pode se aprisionar,dependendo da sua ótica e estado de consciência. Nada como o velho "caminho do meio" pra nos ajudar, dica simples mas com grandes efeitos.Manter a estabilidade da consciência,é manter tbm a estabilidade com o interno e externo.Mas isso só depende de nós.
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