Cabelos aurorescentes, ondulados e sísmicos. Um rosto
delicado, sobrancelhas fortes, olhos penetrantes e lábios entreabertos. Lábios
que me revelavam a fonte de todos os prazeres. Lábios que procuravam dizer
algo.
Estendi minha mão.
O gesto pretendia ser de aliança, mas o rosto angélico se
afastou e deixou o corpo feminino se revelar. Quando vislumbrei tamanha obra
prima, a peça em sua totalidade, conclui o que mais temia.
Deus estava morto.
Morto.
A mulher que estava diante de meus olhos não poderia existir
sem ter sido concebida ao custo do consumo
de toda essência divina.
Deus estava morto.
Ela estava viva.
Minhas mãos tremiam. O coração em síncope.
Ela se afastou um pouco mais. Era a Eva que concebia Adão
para ser seu consorte. Era o sol que aquecia toda uma galáxia. Era o centro do
universo. Era vida. Era fogo alquímico. E como todo fogo precisa consumir algo para existir, ela havia
consumido Deus.
Tentei me aproximar uma vez mais. Ela se afastou. Mas foi aí
que percebi, mais uma vez a faísca de lucidez, que não era ela que se afastava
de mim. Mas sim eu que caía em um abismo infinito toda vez que tentava me
aproximar.
Desisti.
Deus estava morto.
Ela estava viva.
Isto era o suficiente para mim.
Escrito por Leonardo Triandopolis Vieira.




2 comentários:
Curti o conto leo! Congrats! 2 perguntas que nao querem calar!! Essa musica ai é tua? e segunda quem é esta mulher que ao ser parida roubou toda vitalidade de deus?
abraços
Pedro, a música e Morrow of the Earth do Opeth e a mulher é a protagonista do conto.
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