15/09/2011

Sufismo: A doutrina dos Faquires parte 2

Continuando com os posts sobre a doutrina dos faquires. Agora comentando sobre o objetivo, a magia e o governo sufi.
Objetivo do Sufismo.

A teoria do sufismo é de que o homem, em seu estado normal, parte animal, parte espírito, é incompleto. Toda a doutrina e ritual sufis se dedicam a purificar aquele que busca e transformá-lo, portanto, em In-sán-i-Kámil – homem perfeito ou homem completo. Considera-se que uma pessoa pode estar apta a atingir esse estado de completude por si mesma ou através de outros meios que não o sufismo. Porém está implícito que o sufismo é o caminho estabelecido, com seu método prescrito e a orientação dos mestres que já trilharam o caminho.

Quando o aspirante atingiu o estado de integridade, que é o objetivo do culto, está então com o infinito; e os conflitos e incertezas, aos quais ele como mero mortal estava sujeito, já não mais existem. Esse último estágio de desenvolvimento é conhecido como wasl, união.

A vida monástica, no entanto, é profundamente evitada por todos os pensadores sufis. Seus motivos são que, se um homem priva a sociedade de seus serviços e atividade, está sendo antissocial. Sendo antissocial, ele está indo contra o plano divino. Deve, portanto, na palavras do primeiro princípio do sufismo “estar no mundo, mas não ser do mundo!” (Dar dunya básh: az dunya mabásh!).

A hierarquia dos santos sufis muçulmanos é, portanto, conhecida por suas ocupações assim como por seus títulos. Assim, um Attár era químico, um Hadrat Baháuddin Naqshban era pintor, e assim por diante. Certos reis da Índia e da Pérsia ao se tornarem sufis assumiram outras ocupações extras para pagar por sua manutenção, permanecendo como governantes e não tomando nada do tesouro por sua própria conta.

O Governo invisível do sufismo.

O chefe de todo o sistema sufi é o Qutub: ele é o mais iluminado de todos os sufis, atingiu o grau de wasl (“união com o infinito”) e, segundo alguns, detém o poder sobre todo o organismo sufi. Outros afirmam que o Qutub tem também considerável poder político ou temporal. De qualquer forma, sua identidade é conhecida de muitos poucos. Ele se comunica apenas com os líderes das ordens. As conferências são feitas telepaticamente ou então através de anulação do “tempo e espaço”. Diz-se que o último fenômeno significa que os sufis do grau de wasl podem transportar-se a qualquer parte instantaneamente, fisicamente, pelo processo de descorporificação.

O Qutub é servido por quatro deputados, os awtád, ou pilares, cujas funções são de manter o controle e o poder sobre os quatro cantos da Terra e relatar-lhe constantemente o estado de coisas em cada país. Abaixo dos awtád estão os 40 absal (aqueles que se transformaram espiritualmente), e abaixo deles 70 nobres, que por sua vez comandam 300 senhores. Os santos sufis que não ocupam um posto determinado nessa hierarquia são chamados santo: wali.

Milagres e poderes dos sufis.

Quais são os milagres e poderes atribuídos aos santos sufis? Se bem que quase não haja fenômenos taumatúrgicos que não tenham sido reivindicados por alguma autoridade como já realizados pelos dervixes, alguns milagres são mais característicos do culto do que outros. O primeiro – conforme a crença de que o tempo não existe – é a anulação do tempo convencional. As histórias sobre esse fenômeno são muitas e variadas.

Talvez a mais famosa seja o caso do xeque Shahab-el-Din. Diz-se que ele podia induzir a aparição de frutas, pessoas e objetos absolutamente segundo a sua vontade. Conta-se que uma vez ele pediu ao sultão do Egito que mergulhasse a cabeça num recipiente com água. Instantaneamente o sultão se viu transformado num marinheiro de um navio naufragado, jogado à praia de alguma terra inteiramente desconhecida.

Ele foi recolhido por lenhadores, levado à cidade mais próxima (jurando vingança contra o xeque, cuja magia o havia colocado nessa situação), e começou a trabalhar como escravo. Depois de alguns anos ganhou sua liberdade, começou um negócio, casou-se e se estabeleceu. Mais tarde veio a empobrecer outra vez e tornou-se carregador autônomo, na tentativa de sustentar sua esposa e sete filhos.

Um dia, acontecendo estar na praia de novo, mergulhou na água para banhar-se.

Imediatamente encontrou-se de novo em seu palácio no Cairo, novamente rei, rodeado de cortesões, com um xeque muito grave à sua frente. A experiência toda, que lhe pareceu ter durado toda uma vida, tinha levado apenas alguns segundos.

Essa aplicação da doutrina de que “o tempo não é sentido para os sufis” é refletida no famoso exemplo da vida de Maomé.  Conta-se que o profeta, quando se preparava para sua milagrosa “marcha noturna”, foi levado ao céu, ao inferno e a Jerusalém pelo anjo Gabriel. Depois de quatro vintenas e dez conferências com Deus, retornou à Terra: a tempo de agarrar um copo de água que tinha sido derrubado quando o anjo o levou.

Além da inexistência do tempo, o espaço quase não importa ao adepto sufi que quer viajar. O transporte de muito dos mais famosos professores sufis é tido como fato corriqueiro. Sufis já foram vistos ao mesmo tempo em lugares separados por muitos milhares de quilômetros. O xeque Abdul-Qadir Gelani, um dos mais celebrados santos do sufismo, era capaz de viajar milhares de quilômetros num piscar de olhos, a fim de estar presente ao funeral de algum amigo adepto.

Caminhar sobre a superfície das águas e voar enormes distâncias à vista das pessoas no solo são outras que se diz serem regularmente pelos iniciados.

Milagres, enquanto tais, são tidos como possíveis apenas para profetas. Mas sustenta-se que as maravilhas (karámát) são possíveis a grande número de sufis. As atividades dos magos são classificadas como istidraaj, que quer dizer meros truques e trabalhos furtivos.

Continua...

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