As bicicletas, constantes e fluídicas, circundavam-na. Como
aquelas belas e majestosas árvores circundavam o pálido rio. Um sorriso mudo,
como o sol que se espreguiça entre as nuvens, iluminava a simétrica face – cujos
cabelos, inflamados de tom auroral, deixavam as faces dos ciclistas em segundo
plano. Ela estava onde queria estar.
Ana segurou firme a câmera fotográfica em suas mãos. A cor
preta da máquina escondia a explosão de cores que atravessavam a lente. Uma
lente mágica. Que permitia a Ana capturar imagens por de trás do Véu.
Mas que Véu? O Véu da realidade. O Véu que nós, humanos,
jogamos sobre a face do mundo – com nossa banalidade.
Ana estava onde queria estar.
Os ciclistas eram suas estrelas e ela, o próprio sol. Ana
brandiu sua câmera. Sim, brandiu. Pois era como se a majestosa rainha Titânia
brandisse sua espada de sonhos. A destreza com que ela moveu a ferramenta
mágica ajustou a lente e focou o que ninguém mais no mundo poderia ver era
feérica.
Enormes peixes trajando cachecóis, e com pernas longilíneas,
pedalavam bicicletas de musgo e lodo aquático. Clic. Ela congelou a cena
e guardou a foto em seu coração. Um coração de mãe, diga-se de passagem. Ana
nunca deu à luz uma criança, mas a própria luz era ela. E corações de mãe pertencem àqueles
que são luz.
Mas o que a fotógrafa das coisas além Véu não
percebeu foi que ela não era a única a usar flashes e lentes mágicas. E, sem
sequer imaginar, ela foi capturada pelas lentes do Observador.
O Observador a viu sem que ela o visse. Sorriu para ela sem
que ela, para ele, sorrisse. Clic. Ele a capturou com sua câmera
especial. E Ana, na foto, estava como ela realmente era. Ali se encontrava uma
garota vestindo calça vermelha, blusas sobrepostas em marrom e branco, casaco,
cachecol e mochila. A máquina fotográfica em sua mão destra e a feminina face
em silêncio. Mas um silêncio muito falador. Que falava tudo o que Ana era.
Tudo, menos banal. Ana apareceu para a foto do observador exatamente daquele
jeito. Mesmo com toda magia da máquina alheia, Ana era apenas o que era.
Era mágica. Era feérica.
O Observador sorriu. Um sorriso largo e gostoso. Pois bastou
um clic para descobrir que nem todos os humanos eram assolados pela
banalidade. Ana estava ali. Ela era a prova disso. Ele arrancou uma escama de
um dos peixes ciclistas e soprou. A escama voou e passou a milímetros de Ana
para, logo em seguida, mergulhar no rio – não mais pálido.
O Observador se foi.
Mas não partiu sem deixar um presente para o mundo. Talvez,
quem sabe, pela sincronia dialética do silêncio ou pelas brumas da sanidade, o
mundo veio a tomar ciência desta foto como sendo a foto tirada por algum amigo
de Ana, ou por outra pessoa. Quem sabe? É óbvio que Ana sabe. Mas a foto está
aí e nela se pode ver tudo, menos banalidade.
Como é possível desbanalizar o banal no mundo? Em algum
canto do sonhar o Observador agora sabe a resposta.
Basta um clic. E pessoas com uma câmera mágica.
OBS: Agradecimento especialíssimo para a querida amiga Ana Paula! Dona da foto e da inspiração! Namastê!




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