23/09/2011

Conto: Um Clic Mágico.

As bicicletas, constantes e fluídicas, circundavam-na. Como aquelas belas e majestosas árvores circundavam o pálido rio. Um sorriso mudo, como o sol que se espreguiça entre as nuvens, iluminava a simétrica face – cujos cabelos, inflamados de tom auroral, deixavam as faces dos ciclistas em segundo plano. Ela estava onde queria estar.

Ana segurou firme a câmera fotográfica em suas mãos. A cor preta da máquina escondia a explosão de cores que atravessavam a lente. Uma lente mágica. Que permitia a Ana capturar imagens por de trás do Véu. Mas que Véu? O Véu da realidade. O Véu que nós, humanos, jogamos sobre a face do mundo – com nossa banalidade.

Ana estava onde queria estar.

Os ciclistas eram suas estrelas e ela, o próprio sol. Ana brandiu sua câmera. Sim, brandiu. Pois era como se a majestosa rainha Titânia brandisse sua espada de sonhos. A destreza com que ela moveu a ferramenta mágica ajustou a lente e focou o que ninguém mais no mundo poderia ver era feérica.

Enormes peixes trajando cachecóis, e com pernas longilíneas, pedalavam bicicletas de musgo e lodo aquático. Clic. Ela congelou a cena e guardou a foto em seu coração. Um coração de mãe, diga-se de passagem. Ana nunca deu à luz uma criança, mas a própria luz  era ela. E corações de mãe pertencem àqueles que são luz.

Mas o que a fotógrafa das coisas além Véu não percebeu foi que ela não era a única a usar flashes e lentes mágicas. E, sem sequer imaginar, ela foi capturada pelas lentes do Observador.

O Observador a viu sem que ela o visse. Sorriu para ela sem que ela, para ele, sorrisse. Clic. Ele a capturou com sua câmera especial. E Ana, na foto, estava como ela realmente era. Ali se encontrava uma garota vestindo calça vermelha, blusas sobrepostas em marrom e branco, casaco, cachecol e mochila. A máquina fotográfica em sua mão destra e a feminina face em silêncio. Mas um silêncio muito falador. Que falava tudo o que Ana era. Tudo, menos banal. Ana apareceu para a foto do observador exatamente daquele jeito. Mesmo com toda magia da máquina alheia, Ana era apenas o que era.

Era mágica. Era feérica.

O Observador sorriu. Um sorriso largo e gostoso. Pois bastou um clic para descobrir que nem todos os humanos eram assolados pela banalidade. Ana estava ali. Ela era a prova disso. Ele arrancou uma escama de um dos peixes ciclistas e soprou. A escama voou e passou a milímetros de Ana para, logo em seguida, mergulhar no rio – não mais pálido.

O Observador se foi.

Mas não partiu sem deixar um presente para o mundo. Talvez, quem sabe, pela sincronia dialética do silêncio ou pelas brumas da sanidade, o mundo veio a tomar ciência desta foto como sendo a foto tirada por algum amigo de Ana, ou por outra pessoa. Quem sabe? É óbvio que Ana sabe. Mas a foto está aí e nela se pode ver tudo, menos banalidade.

Como é possível desbanalizar o banal no mundo? Em algum canto do sonhar o Observador agora sabe a resposta.

Basta um clic. E pessoas com uma câmera mágica.

OBS:  Agradecimento especialíssimo para a querida amiga Ana Paula! Dona da foto e da inspiração! Namastê!

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