30/01/2011

Álcool e Saúde - 2 coisas que não combinam.

O álcool é um depressor do Sistema Nervoso Central (SNC). Altera a anatomia das membranas celulares, e, como resultado, reduz a eficiência da condução neuronal, inibindo a sua transmissão. Investigações recentes têm assinalado que o álcool atua sobre os receptores específicos GABA-benzodiazepínicos, no entanto, estabelecer um único mecanismo dos seus efeitos é muito difícil, porque esta droga afeta todos os sistemas neuroquímicos e todos os sistemas endócrinos. 


Bebidas alcoólicas

A ideia que se faz do álcool como produto estimulante é falsa, não passa de mito. Na verdade, a sensação estimulante provocada pelo álcool, nada mais é de que a diminuição da inibição. De fato, o álcool é depressivo e a sua ação pode induzir ao sono.
A ação depressiva do álcool no cérebro e no sistema nervoso central reduz a capacidade mental e física diminuindo a habilidade para a realização de tarefas mais complexas como, por exemplo, conduzir um veículo.
Conduzir veículo é tarefa que requer habilidade e prudência, todavia, estes requisitos são facilmente anulados após o motorista ter ingerido bebida alcoólica. Grande parte dos acidentes de trânsito ocorridos no Brasil é consequência direta da embriaguez ao volante, isso porque muitas pessoas ainda acreditam no falso poder estimulante do álcool.
Todo condutor de veículos em estado de embriaguez, mesmo leve, compromete gravemente a sua segurança e a dos usuários da via.

Como o álcool é absorvido pelo organismo

Uma parcela do álcool introduzida no organismo é absorvida pela mucosa da boca. A grande maioria, porém, é absorvida pelo estômago e intestino delgado, e daí vai para a circulação sanguínea. Aproximadamente 90% do álcool é absorvido em 1 (uma) hora.
O processo de absorção do álcool é relativamente rápido (90% em uma hora). Porém o mesmo não ocorre com a eliminação, que demora de 6 (seis) a 8 (oito) horas e é feita através do fígado (90%), da respiração (8%) e da transpiração (2%).

Verdades e mentiras sobre a bebida  

  • "Vou tomar café forte" - Apesar de estimulante, o café de nada altera o estado de embriaguez.
  • "Vou tomar banho frio" - Água fria apenas dá a sensação de "acordar" no instante da ducha. Os efeitos do álcool, porém, permanecem inalterados.
  • "Vou tomar vento" - Os efeitos do álcool não se dissipam com um "ventinho". Só o passar do tempo elimina o álcool do organismo.
  • "Vou comer antes de beber" - Os efeitos do álcool variam de pessoa para pessoa, mas uma coisa é certa: o álcool sempre produzirá alterações em sua percepção, ainda que você esteja muito bem alimentado.
  • "Vou tomar um remédio" - A ciência não conseguiu produzir qualquer droga que elimine os efeitos do álcool. Nenhum comprimido, nenhuma receita milagrosa.
  • "Vou beber porque conheço o meu limite" - Ninguém está tão acostumado a beber a ponto de ficar livre dos efeitos do álcool. É difícil saber exatamente a hora de parar. Até porque a primeira função a ser comprometida pela bebida é a capacidade crítica.
  • "Vou beber esse tipo de bebida porque é mais fraca." - Não existem bebidas fracas. O que determina o estado de alcoolemia é a quantidade de álcool ingerido. Ingerir 340ml de uísque ou cachaça não faz muita diferença. O certo é que, quem bebe, diminui os reflexos e não pode, de maneira alguma, dirigir.
  • O único remédio é o tempo: As medidas citadas anteriormente apenas produzem bêbados despertos, mas tão bêbados quanto antes.

O álcool produz efeitos de maneiras diferentes

É comum ouvir dizer que é a ingestão do álcool em doses determinadas não altera os efeitos psicológicos. Essa afirmação, todavia, é falsa, pois as vezes o indivíduo ingere uma pequena dose cujo efeito é idêntico a ingestão de uma grande dosagem alcoólica. Logo, em quantidades determinadas, o indivíduo é afetado de formas diferentes em diversas oportunidades.
Independente de algumas pessoas se tornarem mais irritadas ou alegres, em geral, quando bebem ninguém pode prever com precisão seus comportamentos.


EFEITOS ADVERSOS DO ÁLCOOL SOBRE O SISTEMA NERVOSO CENTRAL (SNC)

Dr. Osmi Hamamoto (Neurocirurgião, FAMEMA)

Pergunta - Quando a qantidade de álcool (ETANOL) ingerida pode ser um problema para as pessoas?

Dr. Osmi - As diferenças demográficas, socioculturais, educacionais e religiosas determinam diferentes graus de tolerância ao uso e abuso de álcool. Porém o critério mais frequentemente empregado para estabelecer o padrão de uso abusivo de álcool puro consumida e a frequência de consumo:

Classificação dos tipos de bebedores:

A.Bebedor Discreto("bebedor social"):Ingere menos de 212 gramas de álcool por mês.
B.Bebedor Moderado:Ingere de 212 a 540 gramas / mês.
C.Bebedor Excessivo:Ingere mais de 540 gramas / mês.

Pergunta - COMO O ÁLCOOL INGERIDO CHEGA ATÉ O CÉREBRO?

Dr. Osmi - Quando ingerimos o etanol, ele é rapidamente absorvido no trato gastrointestinal, sendo uma quantidade substancial já absorvida ao nível do estômago. Atinge concentração sanguínea máxima em 1 hora e depois é oxidado no fígado por enzimas chamadas desidrogenases alcoólicas, transformando-se em aldeído acético. Ao atingir o sangue, circula até o sistema nervoso que inclui o cérebro, medula espinhal e nervos periféricos.

P
ergunta - QUAL A AÇÃO DO ÁLCOOL NO CÉREBRO?

Dr. Osmi - O etanol possui ação puramente depressora sobre as células nervosas, diminuindo os impulsos nervosos. Pode causar efeitos mínimos quando a concentração sanguínea é mínima, em torno de 46 mg / 100 ml de sangue, pode levar ao coma com concentrações em torno de 300 mg / 100 ml e até mesmo à morte quando atinge concentrações em torno de 500 mg / 100 ml.

P
ergunta - SE O ÁLCOOL DEPRIME O CÉREBRO, PORQUE QUANDO BEBEMOS, NO INÍCIO HÁ DESINIBIÇÃO, EUFORIA ?

Dr. Osmi - Porque em pequenas quantidades o etanol inicialmente possui efeito depressor sobre os neurônios dopaminérgicos do Sistema Límbico (Região do Cérebro responsável por nossos sentimentos e emoções). Esses neurônios inibem algumas de nossos sentimentos e emoções e portanto ação depressora do álcool sobre neurônios inibitórios leva à EXCITAÇÃO, DESINIBIÇÃO, EUFORIA. Ao continuar ingerindo álcool o mesmo atinge também outras áreas do cérebro, com ação predominantemente excitatória e a partir daí começa haver inibição, sonolência, torpor e até coma.

P
ergunta - O ÁLCOOL PODE ALTERAR OS REFLEXOS NEUROLÓGICOS E, PORTANTO LEVAR A ACIDENTES, CASO A PESSOA DIRIJA APÓS BEBER ?

Dr. Osmi - Sim, como dissemos o álcool tem ação depressora sobre o cérebro e pode causar sonolência, desatenção, desconcentração e eventualmente desmaios o que pode acarretar tragédias no trânsito caso a pessoa dirija após ingestão de bebidas alcoólicas. Em um estudo realizado nos EUA em motoristas urbanos, envolvidos ou não em acidentes de trânsito, concluiu-se que:
- Com dosagens sanguíneas de 80 mg / 100 ml há aumento de 4 vezes na probabilidade de ocorrer acidentes;
- Com dosagens de 150 mg / 100 ml há aumento de 25 vezes na chance de ocorrer acidentes.
Portanto no Reino Unido é ilegal dirigir com uma concentração sanguínea de etanol superior à 80 mg / 100 ml.

Pergunta - QUAIS AS COMPLICAÇÕES QUE O ÁLCOOL PODE CAUSAR NO SISTEMA NERVOSO ?

Dr. Osmi - As complicações podem ser de 2 tipos:

- As agudas: Que são decorrentes da ingestão excessiva e isolada de álcool;
- As crônicas: Decorrentes da ingestão excessiva e frequente (diária) de álcool ao longo de meses ou anos.
Dentre as complicações agudas que ocorrem no SNC, podemos destacar a chamada intoxicação alcoólica aguda, que clinicamente pode se manifestar como:
A) Intoxicação patológica: É uma situação onde o indivíduo após ingerir bebida alcoólica torna-se irracionalmente furioso, violento, destrutivo.
B) "Blackout": Ocorre uma lacuna de memória em que o indivíduo não se lembra de eventos e ações ocorridas durante um período de bebedeira, durante o qual o seu estado de consciência parecia adequado.
C) Coma: Emergência médica onde o indivíduo pode apresentar insuficiência respiratória sendo necessário entubação e ventilação mecânica para evitar lesões cerebrais definitivas e sequelas.

P
ergunta - E QUAIS SÃO AS COMPLICAÇÕES NEUROLÓGICAS DECORRENTES DO ALCOOLISMO CRÔNICO ?

Dr. Osmi - Dentre as complicações crônicas podemos ter:

- Abstinência alcoólica: Inicia-se 6 a 24 h após a abstinência absoluta ou relativa da ingestão de álcool. Caracteriza-se por ansiedade, inquietação, irritabilidade, insônia, tremor, aumento da frequência cardíaca, aumento da pressão arterial, aumento da transpiração corporal e da temperatura. No segundo ou terceiro dia há alucinação, desorientação no tempo e espaço, confusão, delírio, agitação, taquicardia, sudorese, hipertermia, caracterizando o "Delirium Tremens (D.T.)", que geralmente melhora após 3 ou 4 dias. Em casos mais graves pode haver distúrbios metabólicos, desidratação, convulsões e até mesmo óbito.
- Síndrome de Wernicke-Korsakoff: Caracteriza-se por desorientação, confusão, amnésia, dificuldade para deambular e confabulação. Pode iniciar-se de forma aguda (horas ou dias) e às vezes subaguda ( semanas), após a ingestão excessiva de álcool.
- Demência Alcoólica: É um quadro de origem multifatorial (Efeito tóxico direto do etanol sobre os neurônios, traumatismo craniano, deficiência nutricional), mostrando sinais de lesão nos Lobos Frontais do cérebro e alterações da personalidade. Caracteriza-se por apatia, tendência à mentira, redução da capacidade de julgamento, perda do interesse pelo ambiente e pela sua aparência, perda das habilidades viso-espaciais e da memória.
- Miopatia: O alcoolismo é uma das causas mais comuns de lesão de células musculares esqueléticas e excreção de mioglobina (proteína existente nos músculos) pelos rins levando a uma miopatia que é caracterizada por dor intensa, câimbras musculares, necrose muscular. Pode ainda levar à lesões renais e insuficiência renal.
- Polineuropatia periférica: É o acometimento de nervos periféricos, geralmente dos membros inferiores, causando dormência, diminuição da sensibilidade, sensação de choque, queimação, e até anestesia nos pés e mãos, podendo levar à lesões nestes órgãos por redução da sensibilidade táctil, térmica e dolorosa.

Pergunta - ESSAS LESÕES NO SNC SÃO REVERSÍVEIS CASO HAJA INTERRUPÇÃO DA INGESTÃO DE ÁLCOOL?

Dr. Osmi - Depende do tipo, da extensão e do grau da lesão. A miopatia e a polineuropatia são exemplos de problemas que podem melhorar após a interrupção do alcoolismo, porém quase todas as outras lesões melhoram em maior ou menor grau com o tratamento adequado e interrupção da ingestão de álcool.



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