28/12/2010

Conto: Dos Primeiros

Imagem de Oliver Ray

As árvores jazem enormes e eternas, desde o início dos tempos elas habitam a superfície deste mundo. O chão coberto por gramas, areias, pedras e um incontável e inominável tabu deitado sob e sobre a vasta e virgem Terra de ninguém. O vento corre sem medo, sem pressa, ou melhor, o vento se atira em todas as coisas e todas as coisas se atiram no vento. Os animais, filhos legítimos de tal mãe, saboreiam a vida não mais que as próprias árvores.

Ele abre os olhos pela primeira vez, em suma, a primeira das primeiras vezes Ele abre os olhos. Cores, formas, acostumar-se ou anuviar-se a tal ato de desnortear. Ele enche seus pulmões de ar pela primeira vez, verdadeiramente a primeira vez que seus pulmões se enchem de ar, uma dor extrema, aliás, eis a primeira vez que ele sente dor, não poderia ser nada menos que uma dor extrema, a sua primeira dor extrema. Grito, eis a primeira das primeiras vezes que ele emite um som, ou seja, um grito, pois a dor sentida o fez emitir este chilrear tão inocente que lhe fez por em prática seus ouvidos. O som! E ele pôde pela primeira vez saber que pode escutar os sons, afinal eles foram feitos para isso. Ele se observa. Nota que possuiu um corpo, as suas ramificações superiores ele imagina-as como sendo braços e mãos, as inferiores como sendo pernas e pés. Nu ele não está, pois seu corpo lhe garante extremo conforto e o clima primeiro é bastante receptivo à primeira vista, nunca o constrangendo.

Ele se levanta pela primeira vez e pela primeira vez ele cai. É tudo tão estranho e esquisito, é como se o destino e a vida, já esta a sua primeira, lhe fizessem cócegas por todo o seu corpo. Ele começa a rir e rolar sobre as gramas que lhe acariciam e sob as árvores que lhe adotam. Primeiro filho da primeira era de ninguém. Primeiro.

Toda a existência desperta para este que acaba de nascer, do ventre de ninguém, filho do céu e da terra, primeiro de uma nova raça, simplesmente o primeiro. Pássaros e lagartos, gigantes e miúdos vêm de suas preces visitá-lo, ursos e dragões, fadas e faunos vestem-no de canções. Ele caminha um pouco, a primeira vez que caminha sem cair, logo desvanece no colo de uma árvore para assim tirar seu primeiro sono. Afinal este fora um primeiro dia bastante agitado para quem acaba de existir pela primeira vez.

Ao romper de um novo dia Ela, pela primeira vez, abre seus olhos e toma consciência de tudo que Ele tomara e sentira no dia anterior. Ela olha para Ele, o vento esbarra moldando-a à forma da mãe de ninguém, Ela se aproxima e começa a cheirá-lo, cheira todo o corpo, cheiro que a agrada muito e a faz deitar-se ao lado dele e também entregar-se ao sono. Com ele ao seu lado.

A não mais solitária estrela flamejante, pois acabara de tomar as nuvens por suas companheiras, após um dia de novidades mil, resolve se recolher atrás do mundo podendo assim espiar sua amada dama de branco reinar na noite acompanhada por suas infinitas súditas. Sim, um amor platônico, mas um amor eterno.

Ele acorda e nota que Ela esta a dormir ao seu lado, como Ela é bela, ele pensa pela primeira vez, tocando-a levemente com as mãos, eis a primeira vez que Ele a toca. Primeiro toque, primeira sensação, o primeiro sentimento. Ela abre os olhos, aos poucos se acostuma com a claridade e com as sensações provocadas pelo toque dele. Ela sorri. Primeiro contato.

Enormes pássaros sobrevoam as árvores ressaltando e alargando as enormes sombras que dançam no chão coberto por vida. O espetáculo de um mundo jovem, a pouco gerado pela mãe de todos, pela mãe de ninguém. As lágrimas derramadas pelos eternos ainda sem nome formam os mares e oceanos deste vasto mundo novo, a terra suga parte destas águas e as consome num magistral amor transformando-a nos rios e lagos do mundo.

Simplesmente o Primeiro e a Primeira. Esfarela-se algo de um êxtase inominável onde é possível um dia terminar com esta sucessão de primeiros.

 
Conto de Leonardo Triandopolis Vieira.
Presente no livro Liber Imago (CBJE - 2008)
ISBN: 9788578101251
Todos os direitos reservados.

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