Finalizando a série "Características Singulares do Budismo" vamos descobrir mais sobre os Três Selos do Dharma!
Os "Três Selos do Dharma" (Três Características da Existência) são uma importante doutrina do Budismo. Os Três Selos do Dharma podem determinar se um dado ensinamento budista é a Verdade Absoluta. Os Três Selos do Dharma são como um carimbo oficial através do qual pode-se reconhecer a autenticidade de mercadorias do cotidiano. Uma doutrina que não esteja em consonância com os Três Selos do Dharma não é um ensinamento completo, mesmo que tenha sido proferida pelo Buda. Por outro lado, uma doutrina que esteja de acordo com os Três Selos do Dharma é um Dharma genuíno, mesmo que não tenha sido pessoalmente transmitida pelo Buda.
Os Três Selos do Dharma são os seguintes: "Todos as coisas condicionadas (samskaras) são impermanentes", "Nenhum dharma (estados condicionados e não-condicionados) tem individualidade substancial" e "O Nirvana é a paz perfeita". Os três axiomas são utilizados conjuntamente para provar a autenticidade do Dharma e, por isso, são denominados os "Três Selos do Dharma".
1. Todos os samskaras são impermanentes.
"Todos as coisas condicionadas (samskaras)" refere-se a todas as formas e ações deste mundo. De acordo com a doutrina budista, nenhuma dessas formas ou ações é permanente. Tal impermanência pode ser ilustrada através dos seguintes pontos:
1. Os "três períodos do tempo" fluem contínua e ininterruptamente. Isso mostra que todos os samskaras são impermanentes.
2. Todos os dharmas originam-se de causas e condições e, portanto, são impermanentes.
O que significa dizer "os três períodos de tempo" fluem continuamente? Esses períodos são: passado, presente e futuro. Do ponto de vista temporal, todos os dharmas são impermanentes porque, nem por um instante, permanecem imutáveis, surgindo e desaparecendo a cada momento. Os dharmas do passado já estão extintos. Os dharmas do futuro ainda não chegaram a existir. Os dharmas do presente extinguem-se assim que surgem. Assim, todos os dharmas são impermanentes. Por que dizemos que todos osdharmas, que surgem devido a causas e condições, são impermanentes? Uma vez que todos os dharmas são formados pela combinação e unificação de diferentes condições, a desintegração das causas e condições necessárias resulta na eliminação dos dharmas. Como as causas e condições são impermanentes, qualquer dharma que surja delas é conseqüentemente impermanente também. Por exemplo, um ser humano renasce como resultado de seu carma anterior. Do nascimento à morte e da morte ao nascimento, as vidas passam perpetuamente por passado, presente e futuro. A vida é verdadeiramente impermanente.
O funcionamento de nossa mente é também impermanente. Nossos pensamentos surgem e desaparecem constantemente, mudando a todo momento. Da mesma forma, todos osdharmas deste universo surgem e desaparecem a cada instante. Sua existência é um processo contínuo. Os fenômenos terrenos do surgimento, manutenção, degeneração e destruição; as mudanças sazonais da primavera, verão, outono e inverno e o próprio ciclo da vida do nascimento, envelhecimento, adoecimento e morte: tudo flui como um rio. Nada jamais permanece imutável nesse fluxo contínuo.
Costumamos classificar os sentimentos humanos em três categorias: sentimentos agradáveis, desagradáveis e aqueles que não são nem agradáveis nem desagradáveis. É claro que sentimentos desagradáveis são sofrimento (duhkha). Entretanto, sentimentos agradáveis também são duhkha porque eles também findam. A saúde e a beleza, por exemplo, resultam em sentimentos agradáveis, mas sua perda pode gerar sofrimento. Sentimentos que não são nem de felicidade, nem de tristeza, trazem-nos sofrimento por causa da mudança [intrínseca a eles]. Exemplos disso são os sentimentos resultantes da passagem do tempo, da brevidade da vida e da impermanência de todos os dharmas. Esse movimento perpétuo de mudanças causa intolerável angústia nas pessoas — esse é o sofrimento da impermanência. É por isso que os ensinamentos budistas afirmam que todos os samskaras são impermanentes e que todos os sentimentos são duhkha.
2. Nenhum dharma tem individualidade substancial.
Quando, anteriormente, abordamos a afirmação "todos os samskaras são impermanentes", discutimos que nada é permanente do ponto de vista temporal. Agora, se considerarmos o ponto de vista espacial, nada pode existir independentemente. Nós, seres humanos, gostamos de nos aferrar à nossa individualidade e acreditar que "eu" ou "minha individualidade" existem: minha cabeça, meu corpo, meus pensamentos, meus pais, meu cônjuge e meus filhos. Desenvolvemos "apego à individualidade" com relação ao que acreditamos ser. Desenvolvemos apego aos objetos que nos cercam. Temos a tendência de olhar para o mundo tendo o "eu" como centro de tudo, como se nada pudesse existir sem esse "eu". Contudo, de acordo com a profunda e racional perspectiva dos ensinamentos budistas, na verdade, a tal individualidade permanente e independente não existe. Por quê? Para considerarmos que uma entidade tenha individualidade, quatro pré-requisitos precisam ser preenchidos: a entidade precisa necessariamente ser permanente, autônoma, imutável e independente.
Analisemos então o corpo humano, entidade que tendemos a considerar como sendo "eu". Desde o momento do nascimento, e ao longo das várias décadas da vida de uma pessoa, o corpo humano passa por constantes mudanças fisiológicas de nascimento e morte à medida que cresce, amadurece e envelhece. De que forma, então, poderia ser permanente e imutável? O corpo humano é formado pela combinação e unificação dos quatro grandes elementos e dos cinco agregados; é originado quando se apresentam as condições necessárias para tal unidade e deixa de existir quando tais condições desaparecem. Como, então, poderia ele ser autônomo? O corpo humano é o local onde todas as variedades de sofrimento se reúnem: sofrimentos fisiológicos, tais como fome, frio, doença, fadiga; e sofrimentos mentais e emocionais, que incluem ira, ódio, tristeza, medo e frustração. Quando vivencia todos esses sofrimentos, o corpo não consegue se libertar. Como poderia ele, então, ser independente e soberano? Podemos observar, portanto, que a "individualidade", como definida anteriormente, não existe aqui. Assim, os ensinamentos budistas afirmam que nenhum dharma tem individualidade substancial.
A ausência de uma individualidade substancial, anatman, é o alicerce do Caminho do Meio, é o ensinamento fundamental do Budismo. A ausência de uma individualidade substancial é um ensinamento singular que distingue o Budismo de outras doutrinas religiosas ou filosóficas.
3. O Nirvana é a paz perfeita
Essa afirmação significa que as coisas acabarão por alcançar um estado de paz, independentemente de quão caóticas estejam no mundo. Não importa que as coisas pareçam diferentes, no fim tudo será igual. O estado de Nirvana é, na verdade, de paz e igualdade. De acordo com o Budismo, o resultado de se alcançar o estado de Nirvana é que todas as aflições e o ciclo de nascimento e morte são exterminados, o sofrimento deixa de existir, a felicidade eterna é alcançada, a sabedoria perfeita torna-se realidade e todas as ilusões são erradicadas. As pessoas comuns acreditam que o Nirvana só pode ser alcançado depois da morte. Na verdade, a definição de Nirvana é "sem nascimento nem morte". Nirvana significa a extinção do apego, a eliminação do atmagraha (aferro à noção de "individualidade") e do dharma-graha (aferro à crença de que as coisas são reais), a erradicação dos obstáculos gerados pela impureza e dos impedimentos ao conhecimento. Significa dar um fim ao ciclo de nascimento e morte. Nirvana é liberação. A impureza é cativeiro. Um criminoso acorrentado não é livre, da mesma forma que não o são os seres vivos agrilhoados por cobiça, raiva e ilusão. Praticando o Dharma e se purificando, os seres vivos liberam-se e alcançam o Nirvana. Esse processo é o único caminho para o Nirvana.
Na época do Buda, seus discípulos viajavam a diferentes lugares para ensinar o Dharma, depois de terem alcançado o Nirvana. Seus exemplos nos fazem compreender que o Nirvana não é algo para ser alcançado fora do contexto dos dharmas. Todos os dharmas eram originalmente Nirvana. No entanto, uma vez que a mente dos seres vivos está obscurecida pela ignorância, pela ilusão, pelo apego e pela crença de que a individualidade e os dharmas têm existência substancial que pode ser alcançada, as pessoas encontram obstáculos, impedimentos e cativeiro em todos os lugares. Se pudermos ser como os sábios budistas que entenderam que tudo se origina por causa da Gênese Condicionada, então, ainda que continuemos a existir neste mundo, perceberemos que toda a existência está em permanente mutação e não tem uma verdadeira natureza individual. Não mais seremos apegados, estaremos libertos onde quer que estejamos. Liberação é Nirvana.
Hoje apresentei as quatro características únicas do Budismo. Espero que esta palestra tenha aprofundado a compreensão de vocês e que sirva como um primeiro degrau para futuras investigações sobre Budismo. Que todos usufruam de saúde mental e corporal, felicidade e sucesso!
Hsing Yün






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