Dando continuidade aos textos sobre as Características Singulares do Budismo, vamos ver o que Hsing tem a nos dizer sobre o conceito Shunyata...
De modo geral, as pessoas não compreendem o conceito de shunyata (vazio), pois pensam que shunyata é o nada. Essa é uma interpretação errônea. Já falamos sobre o fenômeno da Gênese Condicionada, que significa que todos os dharmas se originam de causas e condições e findam como resultado de causas e condições. Todos os dharmassurgem por causa da combinação correta de causas e condições e findam como consequência da desintegração das causas e condições que resultaram em sua formação. Portanto, a natureza de todos os dharmas é o vazio. Ou seja, os dharmas não têm uma verdadeira natureza específica e, portanto, são descritos como "vazios".
Geralmente, as pessoas limitam a definição de shunyata a "nada absoluto", ainda que considerem a existência como sendo real. De acordo com os ensinamentos budistas, a existência, que surge como resultado da Gênese Condicionada, é ilusória, ainda que não exclua o vazio. Similarmente, shunyata, a natureza fundamentalmente vazia de toda existência, significa a não substancialidade, mas não elimina a existência.
Esse é o conceito de Gênese Condicionada com natureza de vazio.
Gostaria de explicar o que é shunyata da seguinte maneira:
1. Os quatro grandes elementos são fundamentalmente vazios; os cinco grandes agregados não têm existência verdadeira.
O significado infinito do Budismo Mahayana é shunyata e não o "nada absoluto". É um conceito construtivo e revolucionário, utilizado pelos mahayanistas para explicar a existência do mundo e do universo. "Os quatro grandes elementos são fundamentalmente vazios; os cinco grandes agregados não têm existência verdadeira" — foi como o Buda explicou a natureza de todos os eventos e fenômenos deste mundo e do universo, depois de ter se iluminado. Todos os dharmas existem por causa da combinação dos quatro grandes elementos. Quais são eles? São terra, água, fogo e ar. A terra tem a propriedade da solidez; a água, a da umidade; o fogo, a do calor; e o ar, a da mobilidade. Por que dizemos que terra, água, fogo e ar são os grandes elementos? Porque tudo neste mundo e no universo é formado por esses quatro elementos. Uma xícara, por exemplo, é fabricada levando-se ao fogo a argila que foi moldada em forma de xícara. A argila pertence ao elemento terra. Adiciona-se água à argila para que possa ser moldada e, então, ela é levada ao fogo. Depois disso, a xícara é resfriada e é seca pelo ar. Assim, todos os quatro grandes elementos participam da formação de uma xícara.
Da mesma forma, o ser humano também é formado pela união dos quatro grandes elementos. Por exemplo: nossa pele, cabelo, unhas, dentes, ossos e músculos pertencem ao elemento terra. Sangue, saliva e urina, ao elemento água. O calor corporal pertence ao elemento fogo e a respiração e o movimento, ao elemento ar. Assim, caso um dos elementos esteja em desequilíbrio, adoecemos. Se os quatro grandes elementos se desintegrarem, deixamos de existir.
Assim, podemos observar que o corpo físico é formado pela combinação dos quatro grandes elementos. Além disso, a mente, de acordo com nossa compreensão usual, é apenas a combinação dos cinco agregados: matéria (rupa), sensação (vendana), percepção (samjna), formações mentais (samskara) e consciência (vijnana). A vida é o resultado da combinação de causas e efeitos que não têm em si um caráter verdadeiro e independente. Um corpo físico com consciência não é nada mais que um ser que existe como resultado de uma combinação de fatores. Quando a força unificadora dessas causas e condições se exaure, a combinação prévia desses fatores se dissolve e o ente vivente deixa de existir. Onde está, então, a verdadeira e independente individualidade? Assim, o Buda ensina que "os quatro grandes elementos são fundamentalmente vazios; os cinco agregados não têm existência verdadeira".
Certa vez, Tung-p'o Su, da dinastia Sung, foi visitar o mestre Ch'an Fo Yin. Quando Tung-p'o Su chegou, o mestre Fo Yin estava ensinando o Dharma e, assim que viu o visitante, disse-lhe: "Senhor Su, de onde o senhor está vindo? Não temos lugar para que se sente".
Tung-p'o Su imediatamente respondeu: "Mestre, se não há assento, por que é que o senhor não me empresta seus quatro grandes elementos e cinco agregados (seu corpo) para que eu os utilize como assento para meditar?"
O mestre Fo Yin disse: "Vou lhe fazer uma pergunta e, caso a resposta seja satisfatória, permitirei que me use como assento. Caso contrário, então, por favor, deixe-me seu cinto de jade como presente. Eis a pergunta: meus quatro grandes elementos são todos vazios e meus cinco agregados não têm existência verdadeira. Posso, então, perguntar aonde o senhor vai se sentar?"
Tung-p'o Su não conseguiu responder e, assim, tirou seu cinto de jade, que havia sido um presente do imperador, e partiu.
Essa história nos faz perceber que o corpo humano, essa combinação ilusória dos quatro grandes elementos e dos cinco agregados, não tem em si uma natureza substancial que possamos agarrar.
2. O que é shunyata?
No ensinamento Mahayana, shunyata integra os "Três Selos do Dharma". Shunyata é a Verdade Suprema, um importante conceito no Budismo e uma característica única do Budismo que o distingue de outros ensinamentos terrenos.
A maioria das pessoas não compreende o que significa shunyata, e acredita que seja a nulidade completa, o nada. De forma nenhuma. Shunyata é, na verdade, a mais profunda e maravilhosa filosofia. Quem consegue compreender shunyata compreende o Budismo como um todo. O que é, então, shunyata? É absolutamente impossível explicar o significado de shunyata com apenas uma frase. O Tratado sobre o Mahayana oferece dez definições de shunyata que, apesar de não conseguirem explicar totalmente o seu significado, se aproximam muito disso.
As dez definições de shunyata apresentadas pelo tratado são as seguintes:
Shunyata tem o significado da não obstrução. Assim como o espaço, pode ser encontrado em todos os lugares e não obstrui nenhuma existência material.
Shunyata tem o significado da onipresença. Assim como o espaço, a tudo permeia e alcança todos os lugares.
Shunyata tem o significado da igualdade. Assim como o espaço, não discrimina e trata tudo da mesma forma.
Shunyata tem o significado da vastidão. Assim como o espaço, é vasto, ilimitado e incomensurável.
Shunyata tem o significado do amorfo. Assim como o espaço, não tem forma ou feitio.
Shunyata tem o significado da pureza. Assim como o espaço, é sempre puro.
Shunyata tem o significado da imobilidade. Assim como o espaço, está sempre imóvel, totalmente além de qualquer forma de surgimento ou degeneração.
Shunyata tem o significado da negação absoluta. Nega todos os fatos e teorias.
Shunyata tem o significado do esvaziamento do próprio shunyata. Nega todos os conceitos de uma natureza individual independente, assim como destrói todo apego ao conceito de shunyata.
Shunyata tem o significado do inatingível. Assim como o espaço, não pode ser alcançado ou agarrado.
Essas dez definições não conseguem descrever perfeitamente a verdade de shunyata. Entretanto, juntas, fornecem um vívido quadro para que possamos compreender melhor esse importante ensinamento budista.
3. Como perceber shunyata?
1. Shunyata pode ser percebido através da natureza ilusória da continuidade. Toda a existência é vazia porque todos os fenômenos são impermanentes. Assim como no rio Yang Tze, as ondas de trás empurram as da frente, a nova geração substitui a anterior. O tempo continua ininterrupto e os acontecimentos mundanos são sempre o sofrimento, o vazio e a impermanência. Através da continuidade da impermanência, pode-se ver o vazio.
2. Shunyata pode ser percebido através da natureza ilusória dos ciclos. Todos os dharmas do universo são governados pela Lei de Causa e Efeito. Uma causa transforma-se em efeito, que por sua vez torna-se causa. Por exemplo, quando há quantidade apropriada de luz, ar, água e terra, uma semente pode germinar, florescer e frutificar. Quando as condições externas necessárias estão presentes, as sementes dessas frutas germinam, florescem e frutificam novamente. Nesse caso, a fruta, que era o efeito, transforma-se em causa. Através desse ciclo contínuo, no qual a causa transforma-se em efeito e efeito em causa, pode-se ver shunyata.
3. Shunyata pode ser percebido através da natureza ilusória das combinações. Todos os dharmas surgem devido à união harmoniosa de várias causas e condições. O corpo humano, por exemplo, é feito da união harmoniosa de pele, músculos, ossos, sangue e vários fluidos corporais. Se o corpo humano fosse subdividido em seus componentes, não se encontraria um corpo humano independente. Assim, podemos compreender shunyata através da Gênese Condicionada.
4. Shunyata pode ser percebido através da natureza ilusória da relatividade. Todos os dharmas deste universo são relativos, tais como um pai em relação ao filho e um professor em relação ao aluno. Por exemplo, quando o filho se casa e tem um filho, torna-se pai. Da mesma forma, o aluno que aprende o suficiente pode, então, tornar-se professor. Assim, todas as coisas são relativas e, portanto, irreais e vazias.
5. Shunyata pode ser percebido através da natureza ilusória das aparências. Não existe um padrão definido ou medida para analisar as aparências. Por exemplo, a luz de uma vela pode ser muito intensa para os olhos, até o momento em que uma lâmpada elétrica seja acesa: a luz da vela passa, então, a ser tênue. A velocidade de um automóvel pode parecer alta, até que seja comparada à de um avião. Esses exemplos nos permitem perceber que a aparência de todos os eventos e de todos os fenômenos é vista sem um padrão determinado; podemos, portanto, perceber shunyata.
6. Shunyata pode ser percebido através da natureza ilusória dos termos. Atribui-se a cada dharma neste universo um nome diferente. Esses nomes não têm substancialidade e são, portanto, vazios. Uma criança recém-nascida, por exemplo, é chamada de "bebê". Ao crescer, é chamada de "moça". Ao casar-se, é chamada de "senhora". Ao ter seus filhos, estes a chamam de "mãe". Ao envelhecer e ter netos, passa a ser chamada de "avó". De "bebê" a "avó", ela continuou sempre a mesma pessoa e, no entanto, os títulos foram diferindo. Assim, podemos compreender shunyata através da ilusão dos termos.
7. Shunyata pode ser percebido através da natureza ilusória dos diferentes pontos de vista. Diferentes pessoas com diferentes mentalidades terão diferentes pontos de vista a respeito da mesma coisa ou fato. Um exemplo: em uma noite de nevasca, um poeta declamando em uma janela, dentro de uma casa quentinha e confortável, espera que a neve continue por toda a noite, para que possa usufruir de uma paisagem mais bela. Enquanto isso, um mendigo, tremendo de frio, espera que a neve cesse logo para que possa sobreviver àquela noite. Assim, podemos compreender shunyata através dos diferentes pontos de vista.
Termina na parte 4...




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