08/06/2009

O Culto Aquo - Parte 3 de 3

Sinto muito. Creio que esta seja a parte de minha narrativa em que eu os decepciono, pois como eu havia dito no início não consigo me recordar claramente de todos os fatos ocorridos naqueles dias. Não! Espere um minuto... Acredito que algo está acontecendo com minha memória neste exato momento, sim! Minha mente parece retornar do umbral da insanidade e, aos poucos, me entrega o que nem mesmo eu conseguia objetivar...


O vulto adiante parecia ser o de uma mulher, “tire-me daqui” foram as palavras que consegui sussurrar naquele porão imundo. A silhueta feminina se aproximava lentamente, e quanto mais perto chegava, mais se evidenciava sua natureza grotesco-demoníaca. Minha mente sã recusava a todo custo conceber a imagem que penetrava meus olhos e confundia o meu cérebro: um corpo feminino esbelto e luxurioso dividia espaço com uma cabeça reptiliana e repleta de tentáculos úmidos e viscosos, exatamente como os de um polvo.


O corpo daquela criatura era o de um hermafrodita, percebi isto quando, na tentativa de desviar meus olhos daquele encéfalo lovecraftiano, me deparei com sua dupla genitália! Pouco abaixo do umbigo erguia-se o órgão fálico, que desnudava a genitália feminina na região onde deveria estar o saco escrotal. Com isso, cheguei à conclusão de que a criatura, pelo menos em sua parte masculina, era estéril e logo comecei a me preocupar com suas intenções.


“Dê-me um filho” a aberração pediu. No que respondi com um cuspe certeiro em seu ventre. “Isto só pode ser um sonho! Eu nunca sequer me excitaria com um monstro como você!” gritei pouco antes de me desesperar com o que estava prestes a acontecer.


Um clarão passou a preencher o porão, que na realidade parecia mais uma antiga e decadente igreja erguida com rocha e madeira, e a fonte vinha de inúmeras mãos portando candelabros de sete velas. Estava cercado por pessoas parecidas com membros da KKK, com robes escuros e as cabeças cobertas, como carrascos medievais. O circulo de cultistas começou a entoar um cântico, e este maldito coro do inferno começou a, macabramente, fazer efeito sobre mim.


Contra a minha vontade, minha genitália ficou ereta e pronta para receber o invólucro da demônio-hermafrodita. Não podia acreditar no que estava acontecendo, o meu desespero foi tamanho que minha mente deixou meu corpo e vagou pelo umbral das psiques atormentadas.


Quando recobrei minha consciência, estava no meu carro. Aos poucos fui tentando decifrar o que tinha acontecido e tudo levava a crer que não passava de um baita de um pesadelo. Se não fosse pelo fato de logo em seguida encontrar escrito, com fezes de pássaros no vidro dianteiro do carro, as seguintes palavras: Nosso Filho governará o mundo e receberá a vinda dos Grandes Antigos.


Não pude aguentar aquilo, era demais para a minha sanidade! Liguei o carro, as lágrimas jorravam de meus olhos, e dirigi na esperança de voltar para aquela cidade. Não a encontrei, apenas um penhasco de onde me atirei, com carro e tudo, rumo à uma morte insana e dolorosa.


Pena que nunca morri, as pessoas me encontraram correndo desesperadamente pela estrada. Nunca encontraram meu carro e eu fui diagnosticado como doente mental. Hoje estou aqui, preso nesta horripilante pousada chamada Asilo Arkanun. Obrigado, doutor? Ah, ah, ah, ah, ah!!!


Em homenagem a H.P. Lovecraft.

1 comentários:

Meu Deus! Essa foi a história mais arrepiante que já li. Mas, tenho sempre comigo os seguintes ensinamentos do nosso Senhor no Salmo 23: "O Senhor é o meu pastor; nada me faltará."

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